Entrei por um beco estreito e úmido entre a Best West e a Oriun. As lojas estavam cheias de clientes, de jovens raparigas à senhores engravatados, ali se encontrava todo tipo de gente. Suas vozes zumbiam em minha cabeça. Segui rumo ao número 28 tentando trombar o menos possível nas pessoas. De uma confeitaria saiu um senhor baixo de cabelos e bigode brancos usando uma cartola preta a qual combinava com seu terno perfeitamente cerzido e sua bengala esmeralda na qual se via enrolada uma cobra de prata reluzente. Vinha conversando com uma mulher alta e magra, aparentando estar quase nos temidos oitenta, com uma postura ereta e superior em seu taiêr roxo e algumas penas bem acima da cabeça. Notei que conversavam algo sobre a queda no valor de Achernar, a estrela mais brilhante da constelação de Eridanus, que pelo visto havia diminuído em dois pontos percentuais. Talvez mais tarde eu devesse investir nela já que no dia seguinte o quadro voltaria a ser estável e isso provavelmente me renderia um bom dinheiro para o negócio que eu tinha a tratar.
Andei pelo beco até chegar a uma vitrine empoeirada contendo gaiolas, frascos coloridos, almofadas e outras quinquilharias empilhadas atrás de uma placa aonde se lia em letras vermelhas " Adquira aqui seu pó de Maasym com 25% de desconto e corrija os erros do passado!". Botei a mão no bolso da calça e peguei um papel dobrado. Era ali mesmo, "Beco Andrômeda, número 28 , Luminóis e Penugens - Consertos ".
Entrei e me deparei com pilhas de objetos velhos, gaiolas enferrujadas, relógios quebrados, antigos tronos desforrados, roupas, narguilés, entre outros. Me dirigi até o final da loja aonde, sentada de costas no meio de um monte de almofadas, havia uma moça curvada sobre um enorme escudo entalhado em madeira.
- Olá.
Ela se virou rapidamente e seu cabelo caiu pelos ombros. Era uma bela jovem que aparentava estar na flor de seus 20 anos. O castanho cabelo, longo e rebelde, emoldurava seu rosto competindo com seus grandes olhos amendoados de uma profundeza netuniana.
- Olá! No que posso ajudar? Disse sorrindo e se levantando para apertar a minha mão.
Vestia uma calça jeans desbotada, blusa preta desfiada e tênis vermelho rasgado.
- Queria saber se vocês podem consertar um objeto antigo, coisa de família..
- Deixe-me ver o que é. Aqui consertamos de quase tudo!
Tirei do bolso um saquinho e entreguei a ela. Nele havia o relógio de bolso que havia encontrado enterrado na casa da família e que estava emperrado, sem que eu pudesse abrir.
- Nossa! Nunca vi um desses antes! Meu avô vai adorar conserta-lo!
- Porque? O que tem demais? É raro?
- O que? Raríssimo! Isso é um relógio de Omicron, guarda em eu interior todos os segredos de quem o usa e reserva a última luz da alma, o último raio de esperança. É de uma enorme eficiência! Se eu fosse você o guardava bem, alma é uma coisa bem valiosa no mundo de hoje. - Disse enquanto guardava novamente o relógio na bolsa.
- Nossa, não sabia que fazia algo além de ver mostrar as horas. Isso tem conserto?
- Claro, quase tudo tem conserto, ainda mais quando se trata da alma. Sempre há um jeito de repara-la.
Anotou algo em um pedaço de papel e o grudou ao saquinho com uma fita.
- Por aqui por favor. Vou guarda-lo em uma sala específica.
A segui por um corredor de tábua corrida que ficava a direta do salão principal da loja. Passamos por várias portas fechadas nas quais haviam entalhados nomes como " Tempo" "Sentimentos" " Olhos" e " Sangue". Entramos por uma porta na qual havia escrito "Alma". As paredes eram cobertas por estantes entulhadas de objetos que pareciam ter luz própria de um fraco branco e belo.
- Deve estar pronto daqui a 2 mêses. Ligaremos para avisar.
- Que lugar é esse? Perguntei, ainda embasbacado com a triste beleza do local, mergulhado em uma aura misteriosa e intensa.
- É aonde guardamos os objetos ligados a alma do ser humano. Temos de tudo aqui, acredite.
E ela não estava mentindo. Talheres, flores, cacos de vidro, um pote com uma estranha chama roxa, algodão.. tinha de tudo ali! Era impossível que tudo aquilo estivesse de alguma maneira ligado a diferentes almas. Que sentido havia de ter um algodão com aquilo?
Em um canto do quarto vi então uma pilha de asas negras e brancas, abaixo de uma placa com os dizerem "Sem conserto."
- E aqueles ali? Por que não tem conserto? Apontei na direção da pilha.
Ao olhar as asas vi surgir uma tristeza vindo da profundeza dos olhos da menina que sorriu carinhosamente e disse:
- Essas são as minhas preferidas, asas de anjos!
- Como assim? Se as asas quebram como os anjos voam?
- Não voam, são anjos caídos. - Dessa vez pude sentir a amargura em sua voz.
- O que são anjos caídos?
- Bem.. é uma história triste e encantadora, melhor que não ouça.
Ela já estava no meio do corredor caminhando novamente para a sala principal.
- Agora estou curioso! O que são anjos caídos? Por que é uma história triste?
- Porque trata da alma! - disse se virando para mim com aspereza. Olhou em meus olhos por alguns instantes e eu sustentei seu olhar. Parecia que ela estava lendo o interior da minha alma para saber se eu era ou não digno de ouvir sua história.
- Uma vez, um anjo encontrou a quem amar além de Deus. Ele amou e se entregou de corpo e alma, com o mais íntimo do seu ser. Porém, quem ele amou o deixou, levando parte das asas do anjo. Esse é um anjo caído, um anjo de asa quebrada que não sabe mais dar amor e se entregar, porque um dia algo o fez parar de voar. São extremamente frágeis e belos, porém se aproximar de um deles pode ser fatal.
- E porque você não pode faze-los voar novamente?
- Porque eu não sei consertar asas.
[Does not continue.]
Thamyres Vaccaro