quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Quando pequena, nunca entendi porque meus tios mentiam para a minha prima mais nova dizendo que o cachorro do meu avô havia ido para um sítio e não morrido. Agora, com 21 anos, essa ideia me parece bem mais confortável. Isso porque, quando não é uma pessoa do nosso convívio diário, a impressão que temos é essa mesmo: de que ela foi para outro país e não irá mais voltar. De certa forma podemos nos acostumar com essa ideia, mas a verdade é diferente. É uma separação forçada, quase como se a vida te impusesse esse castigo sem ao menos te consultar. Eu nunca gostei de imposições, de ser mandada.

Por isso, quando a saudade aperta, eu imagino aquele intercâmbio na Áustria e, que pena!, lá o telefone não pega e você adotou uma vida mais natureba, largou o whatssap de vez... Que maravilha deve ser a Áustria e todas as histórias que você irá me contar quando nos encontrarmos (porque todo mundo se esbarra de novo nesse universo, pode apostar). E nesse dia eu vou ouvir alguém dizer "Vem cá, você sancha esse cara dupal, o Ford perfect? Tai um mingo que sabe onde guarda a toalha."

Para Lukas Kasdasdisand (eu nunca aprendi a escrever).

13/12/2018

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Eu cresci com meus pais ouvindo Caetano Velloso, Elis Regina e Geraldo Azevedo, me explicando as letras e me contando do tempo da ditadura, da tortura e como aquilo tudo fazia parte de um passado sombrio. Cresci com meu pai exaltando os hippies, a vida sem moldes, sem imposições sociais, a liberdade que ele tanto viveu na juventude. Minha mãe era feminista, lutou contra todos para traçar seu próprio destino, trabalhou desde cedo, nunca foi sustentada por homem, me ensinou a ser independente, a estudar, a não ter vergonha de ser quem eu sou. Minha família era cristã. Falavam do amor ao próximo, falavam de dar a outra face, de ajudar os pobres, sobre sermos todos iguais e não nos julgarmos. Falavam sobre fé.
Hoje me sinto um pouco perdida dentro da minha família. Me sinto como uma pequena personagem de um cartunista satírico, perguntando inutilmente aos meus parentes onde foi parar tudo aquilo que me ensinaram ao longo dos anos, todo o amor que me ensinaram a espalhar e toda a força que me fizeram ter para lutar. Será que eles não acreditam mais? Será que o Deus deles mudou?
Eles se recusam a me ver como um ser pensante, tentam diminuir minhas opiniões ridicularizando-as e apontando que são fruto de uma manipulação do governo, da internet, do comunismo folclórico em que eles acreditam. Eles não querem dialogar. Eles não pedem desculpas.
Logo eu, que sempre me mantive sentada na sala com a boca fechada e os ouvidos bem atentos, captando tudo que diziam e criando minhas próprias opiniões, meu modo de ver o mundo. Eu nunca os julguei. Nunca apontei ou falei com nojo de sua hipocrisia, das barbáries que aconteceram na minha família. Eu sempre tentei entende-los. Somos seres humanos, passíveis de errar, de aprender, de mudar. As pessoas são frutos da época, da família, do meio. Eu sempre me disse "eles mudaram, isso não altera em nada meu amor por eles". 
Mas hoje, me pergunto... será que eu caí tão longe da árvore assim? 
Hoje não reconheço mais no meu pai aquele cara idealista, que me dizia para lutar, que defendia a vanguarda e os artistas militantes. São todos vagabundos, putas e só serão torturados se fizerem por onde, como as crianças de 64. Meu irmão é uma porta, dali só saem palavras convictas que não são passíveis de mudança, ele não está ali para me ouvir, mas sempre para falar, para me ensinar com seus anos de experiência adquiridas de dentro do seu quarto na frente do computador. Minha família não é mais cristã. Pelo menos não como está escrito na bíblia. Eles acham que amar ao próximo é amar quem é próximo deles. Eles acham que Deus lhes deu o poder de julgar o amor e a vida do outro, que o que diverge deles deve ser eliminado com punhos de ferro. Minha família não ouve, não credita, não muda. Minha família só debocha. Só diminui. Acho que definitivamente nosso Deus mudou.
Quando escrevo minha família não quero dizer todos, tantos ali me enchem de orgulho, tantos me dão vontade de conversar e trocar ideias até a madrugada com frases de "é, pode ser certo o que você diz" vindas de ambos os lados. A minha mãe é uma das que salvam. Minha mãe não se identifica mais com o feminismo, não defende a forma de lutar, mas me diz para eu lutar pelo que acredito. Assim como quando eu era criança e a família debochava da forma como eu os corrigia quando falavam "negão" "criolo" e minha mãe ria, mas logo dizia que eu estava certa. Hoje ela me diz para andar de casaco aberto, sem medo de mostrar os adesivos daqueles que eu acredito que podem mudar o país. Minha mãe me defende. Me diz para eu ser quem eu sou, ainda que seja diferente de quem os outros são. Ao menos minha mãe não me diminuem. 
Hoje a mãe de um amigo me disse que não devemos brigar porque os políticos vão, mas a gente fica. Vejo as coisas um pouco diferente. Os políticos vão e a admiração que eu tinha por algumas pessoas também, mas infelizmente só alguns de nós ficarão.