terça-feira, 9 de setembro de 2014



Ela é um campo de margaridas brancas aonde o orvalho se aconchega pela manhã, se aninhando em suas folhas, umedecendo seus cabelos e indo embora com os primeiros raios. Ela é um piano velho, com a madeira riscada, desafinada e fora de moda, perdida numa mata qualquer sem ninguém lhe afagar as teclas para ouvir a música que toca dentro dela. É uma estante de livros encapados, coberta pela poeira do tempo a qual dança junto a luz do sol e transforma em belo o que antes era imundo. E um pulo no abismo não poderia ser mais perigoso, pois sua vontade é variante, seu ócio se resume em desejo e o querer e o não querer a liberta. Olhos. Te devora os olhos como quem quer lhe devorar a alma. Os segredos, Os pensamentos. E então acaricia a fera que há em ti. A acalenta, a afaga...acalma o bicho para depois o entregar ao caçador, recebendo dos dois agradecimentos e juras de amor. A flor de lótus no ombro direito já não a reprime mais. Leva os braços aos céus na tentativa de tocar as estrelas e eu, por vezes, eu acredito que o consiga. O universo parece invadi-la afogando lhe os pulmões e num ato falho de medo e insegurança queima seus desejos, liberta seus monstros, afugenta seus amores e perde-se na mata que habita seu peito, mostrando por fim sua própria íris, sua própria alma, seus próprios segredos.

Thamyres Vaccaro