Mas o fato é que houve uma dança antes do inferno.
Houve uma dança antes de aquela sala pegar fogo e eu e você nos tornarmos um misto de cinzas e gás carbônico, intoxicando o sangue e sujando a pele.
Você segurou a minha cintura com as suas mãos calejadas sem que eu precisasse explicar e me lançou aquele olhar tão confuso e piedoso, o qual eu aprendi a odiar. Meu vestido coral e as pérolas no meu pescoço faziam de nós uma espécie de casal dos anos 50 embarcando em uma primeira dança sem saber que em alguns instantes teríamos realmente dançado. Eu ouvia Piledriver Waltz e suas críticas sobre como a Inglaterra havia perdido sua essência desde que passara a estampar camisetas de lojas da Saens Peña. Me sentei sobre a mureta da varanda e te ofereci um cigarro, você disse que aquilo era nojento e arremessou o maço longe. Eu concordava com você então apenas agradeci. Deitado no meu colo contando seus sonhos e pensamentos você parecia tão menos amedrontador e armado. Eu te contei algumas lembranças e você riu de alguém que eu já fui. O assunto acabou e você falou do frio. Eu disse ser frescura. Você disse que embaixo do meu vestido deveria estar mais quente. Joguei na sua cara algumas verdades e por alguns segundos te vi envergonhado, mas nada bom o suficiente para que eu pudesse me gabar. Você fez aquela coisa chata de me encarar e olhar nos meus olhos como se estivesse lendo minha alma. Odeio que façam isso comigo. Adoro fazer isso com os outros.
Talvez nós pudéssemos ter ficado assim mais algum tempo. Talvez pudéssemos ter transformado todos aqueles pensamentos, excitação e sentimentos ( não sei que nome dar ao certo) em um beijo, mas nós sabíamos que não valeria a pena. Não queríamos que vale-se. Tudo aquilo já estava bom demais. Era o suficiente.
Te puxei para a pista e gritei como Elvis era incrível. Você tentou um twist que me convenceu do quão ruim eu era com essa coisa de dançar. Realmente aquele terno preto caiba bem em você. Se nós tivéssemos tido tempo eu teria dito para você usa-lo todo dia. Seu cabelo bagunçando enquanto se balançava dava um ar bem "reformatório vintage" à sua performasse. Eu amava naquele momento. Não você. Eu amava aquela cena, eu amava aquele momento, eu amava meu vestido coral e toda a luz ambiente que envolvia aquela sala. Você leu a minha mente e gritou que estava amando aquilo, que amava a vida. Gritamos isso um para o outro. Olhamos nossas almas.
Tudo teve três segundos de eternidade.
E então pegamos fogo.
Thamyres Vaccaro
Valsavas:
Teus belos
Cabelos,
Já soltos,
Revoltos,
Saltavam,
Voavam,
Brincavam
No colo
Que é meu;
E os olhos
Escuros
Tão puros,
Os olhos
Perjuros
Volvias,
Tremias,
Sorrias,
P’ra outro
Não eu!
Tem uma caixa de memórias em cima do meu armário que me da a certeza de que o passado foi real ao menos para mim. Tem um quadro de moldura amarela com dizeres bonitos apoiado na escrivaninha que me inspira e me alegra. Minha prima me deu só por me dar e esses são os melhores presentes. O vestido de casamento da minha mãe está pendurado ao lado do armário. Espero que não amarele, ele é tão lindo. Uma pilha de livros sem muita utilidade se posiciona abaixo de um quadro de metal com fotos das pessoas que amo. Já tentei fazer nele uma arrumação bonita, mas depois de uns oito anos desisti. Tem uma prateleira com dois porta-retratos preenchidos por saudades: a praia da minha vida e os meus irmãos. Os sapatos e mochilas estão espalhados pelo chão, assim como um rádio nômade que eu uso muito pouco. Me pergunto porque tenho um chapéu de cowboy encima do teclado empoeirado que também se encontra encima do armário. Deixa pra lá. No espelho estão escritas frases que me inspiram com uma caneta marcadora preta. "Live and let die" está lá e isso é tão bonito. Tem um cartão postal com uma pintura da França e essa foi uma das lembranças que eu mais amei porque foi simples. Numa madeira avulsa acima da janela estão as lembranças que ganhei de Portugal, Holanda, França (outra) e Inglaterra. Mimos. Olho novamente para o espelho e percebo que esqueci de descrever uma menina sentada numa cadeira de madeira, digitando qualquer coisa no computador, em frente ao quadro de moldura amarela. Nenhuma pose interessante, nada que chame atenção. Um santuário neutro e convidativo apenas para aqueles que enxergam além dos olhos, para os que perguntam, para os que supõem, para os que querem saber.
Para outros:
Apenas um quarto.
Thamyres Vaccaro
"Eu gosto das pessoas que param para escutar. Que gostam de abraços, que conseguem amar. Gosto de pessoas que riem de modo estranho, choram escondidas. Gosto de pessoas que não se escondem atrás de máscaras, pessoas que são fortes, pessoas que sempre seguem em frente. Gosto de pessoas que gostam de pessoas. Gosto de pessoas que sabem o motivo de uma lágrima, que estão sempre por perto. Gosto de pessoas que nunca se vão, de pessoas que ficam, que tentam, que conseguem. Gosto de pessoas assim… Como elas são."
— Tati Bernardi.