terça-feira, 9 de setembro de 2014



Ela é um campo de margaridas brancas aonde o orvalho se aconchega pela manhã, se aninhando em suas folhas, umedecendo seus cabelos e indo embora com os primeiros raios. Ela é um piano velho, com a madeira riscada, desafinada e fora de moda, perdida numa mata qualquer sem ninguém lhe afagar as teclas para ouvir a música que toca dentro dela. É uma estante de livros encapados, coberta pela poeira do tempo a qual dança junto a luz do sol e transforma em belo o que antes era imundo. E um pulo no abismo não poderia ser mais perigoso, pois sua vontade é variante, seu ócio se resume em desejo e o querer e o não querer a liberta. Olhos. Te devora os olhos como quem quer lhe devorar a alma. Os segredos, Os pensamentos. E então acaricia a fera que há em ti. A acalenta, a afaga...acalma o bicho para depois o entregar ao caçador, recebendo dos dois agradecimentos e juras de amor. A flor de lótus no ombro direito já não a reprime mais. Leva os braços aos céus na tentativa de tocar as estrelas e eu, por vezes, eu acredito que o consiga. O universo parece invadi-la afogando lhe os pulmões e num ato falho de medo e insegurança queima seus desejos, liberta seus monstros, afugenta seus amores e perde-se na mata que habita seu peito, mostrando por fim sua própria íris, sua própria alma, seus próprios segredos.

Thamyres Vaccaro

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Ele volta da cozinha com uma taça de gim na mão e senta no sofá. Gim é estigante demais e talvez isso o divirta em mais uma das monótonas noites em que ele é liberado do trabalho mais cedo. Ela se mexe na poltrona para que o livro que está lendo fique melhor posicionado sob a luz do abajur.
Ele pergunta como foi o dia, ela responde que foi normal. Eles se detestam. Não, eles não se detestam, eles detestam o que significam um para o outro.
Ele toma um gole do gim e pensa em folhear um pornô no banheiro. Não, ficará mais avontade quando ela for dormir. Ele talvez pudesse, mas não a trai, apesar de tudo ela é uma pessoa boa e muitos anos atrás ele gostava dela.
Ela sente seus olhos se fechando e se pergunta se as palavras que lê ainda fazem sentido em sua cabeça. Ela pensa em acompanha-lo em uma taça de gim, mas a bebida é instigante demais e talvez a situação os force a conversar. Ela está cansada de conversar com ele. Fecha o livro.
Ela pensa que casou jovem demais. Ele pensa que tinha mais opções. Ele era engraçado, ela lembra. Ele se pergunta porque não viajaram o mundo. Ele tirou sua virgindade, naquela época isso era muito importante. Três anos de namoro. Eles estavam acostumados um com o outro, porque não casar?
Ela o encara por um segundo. Pensa em confronta-lo e mostrar o tédio que o casamento se tornou. Ele sustenta o olhar. Ela sabe que ele sabe. Levanta e avisa que vai dormir, apagando a luz do abajur. Ele lhe deseja boa noite, acaba de beber o gim e segue para o banheiro.

Thamyres Vaccaro

domingo, 3 de agosto de 2014

Esse é um trecho do discursos de formatura de um formando do meu colégio, o qual ele direcionou aos pais e eu achei muito coerente.
"Tivemos que vencer preconceitos pessoais de ideologias, preconceitos familiares que nos foram instituídos, preconceitos existências por medo de não sermos suficientemente bom para VOCÊS, quando na verdade nossa obrigação é sermos o suficiente para nós, sermos realizados em nossa vida pessoal, e que essa sensação maravilhosa possa ser transmitida a todos os presentes em nossas vidas, seja de maneira diária, seja como um contato que dura com estações. Somos frutos de nossos erros, em especial, dos erros que vocês provavelmente condenariam, e tenho orgulho de ter tido chance de cometer erros que se dependesse de vocês, nunca cometeríamos. Na verdade, são erros mesmos? Ou cada um instruiu o outro do que é um erro a partir de mágoas e decepções? Vejam como somos belas flores que crescemos em um campo selvagem, porém repleto de vida e que nunca seriamos tão belos a nossa maneira, e nem tão bem desenvolvidos, se ficássemos expostos simplesmente em seus jardins. "

sábado, 14 de junho de 2014

Eco irrevogável e o Grande Talvez


Lendo, talvez, o quarto livro aonde a personagem principal é uma garota misteriosa que se vai antes que os que a amavam possam realmente conhece-la, eu me peguei pensando se gostaria de ser essa garota, se gostaria de ser eternamente um mistério, um Grande Talvez. Eu sei, é irremediável o fato de que os que me amam não me conhecem ao todo e gostam de mim pela ideia que fazem de quem sou, mas será que, se um dia fizerem minha biografia, não esquecerão um detalhe que para mim era importante e que talvez nem tenham notado? Será que se importarão com as minhas lembranças na caixa, com os meus pensamentos em cadernos e meus textos postados ou apenas jogarão tudo fora com o intuito de tornar o sofrimento mais suportável? Eu gostaria que todos que me amaram lessem tudo, quem sabem guardassem ou devolvessem as lembranças as pessoas que participaram das mesmas, e buscassem conhecer quem eu não mostrava em vida. Não gostaria que minha vida fosse toda esquecida e dentro de cinquenta anos ninguém mais soubesse quem foi Thamyres Vaccaro, porém aceito o fato de que, depois da minha morte e depois da morte daqueles cujas vidas eu marquei, eu serei apenas um registro de nascimento num cartório carioca e minha contribuição para a humanidade estará enterrada em diversas covas. Eu aceito.
E isso acontecerá com cada um de nós, mesmo com aqueles que serão lembrados, para quem farão estátuas e documentários. A pessoa, suas lembranças, sentimentos, a mente e a vida em si se vai. Você deixa para o mundo a contribuição que faz na vida das pessoas e a partir do momento em que essas pessoas também se vão, sua vida se tornará apenas um eco na sucessível cadeia de contribuições que rege o mundo. Você atuou na vida de uma pessoa A que irá atuar na vida de uma pessoa B e assim por diante e esse é o único modo de imortalidade que existe, o silencioso e indigente. Você atua apenas na forma de energia.
E quando eu digo contribuir, atuar, eu não quero dizer apenas com grandes feitos, mas também com simples palavras, cumprimentos. Tudo fica armazenado no histórico de vida da pessoa, como se tivéssemos uma memória de dados que armazena tudo que nos acontece ao longo da vida.
Essa é a Thamyres, alguém que talvez não tenha mostrado o máximo ou o melhor, que talvez tenha partes de si jogadas fora, queimadas, que deixará tanta tristeza em morte como deixou alegria em vida e que um dia será completamente esquecida pelos vivos e será apenas um eco.
E ela aceita isso.




Thamyres Vaccaro

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Piledriver Waltz

Mas o fato é que houve uma dança antes do inferno.
Houve uma dança antes de aquela sala pegar fogo e eu e você nos tornarmos um misto de cinzas e gás carbônico, intoxicando o sangue e sujando a pele.
Você segurou a minha cintura com as suas mãos calejadas sem que eu precisasse explicar e me lançou aquele olhar tão confuso e piedoso, o qual eu aprendi a odiar. Meu vestido coral e as pérolas no meu pescoço faziam de nós uma espécie de casal dos anos 50 embarcando em uma primeira dança sem saber que em alguns instantes teríamos realmente dançado. Eu ouvia Piledriver Waltz e suas críticas sobre como a Inglaterra havia perdido sua essência desde que passara a estampar camisetas de lojas da Saens Peña. Me sentei sobre a mureta da varanda e te ofereci um cigarro, você disse que aquilo era nojento e arremessou o maço longe. Eu concordava com você então apenas agradeci. Deitado no meu colo contando seus sonhos e pensamentos você parecia tão menos amedrontador e armado. Eu te contei algumas lembranças e você riu de alguém que eu já fui. O assunto acabou e você falou do frio. Eu disse ser frescura. Você disse que embaixo do meu vestido deveria estar mais quente. Joguei na sua cara algumas verdades e por alguns segundos te vi envergonhado, mas nada bom o suficiente para que eu pudesse me gabar. Você fez aquela coisa chata de me encarar e olhar nos meus olhos como se estivesse lendo minha alma. Odeio que façam isso comigo. Adoro fazer isso com os outros.
Talvez nós pudéssemos ter ficado assim mais algum tempo. Talvez pudéssemos ter transformado todos aqueles pensamentos, excitação e sentimentos ( não sei que nome dar ao certo) em um beijo, mas nós sabíamos que não valeria a pena. Não queríamos que vale-se. Tudo aquilo já estava bom demais. Era o suficiente.
Te puxei para a pista e gritei como Elvis era incrível. Você tentou um twist que me convenceu do quão ruim eu era com essa coisa de dançar. Realmente aquele terno preto caiba bem em você. Se nós tivéssemos tido tempo eu teria dito para você usa-lo todo dia. Seu cabelo bagunçando enquanto se balançava dava um ar bem "reformatório vintage" à sua performasse. Eu amava naquele momento. Não você. Eu amava aquela cena, eu amava aquele momento, eu amava meu vestido coral e toda a luz ambiente que envolvia aquela sala. Você leu a minha mente e gritou que estava amando aquilo, que amava a vida. Gritamos isso um para o outro. Olhamos nossas almas. 
Tudo teve três segundos de eternidade.
E então pegamos fogo.





Thamyres Vaccaro

domingo, 18 de maio de 2014

Valsavas:
Teus belos
Cabelos,
Já soltos,
Revoltos, 
Saltavam,
Voavam,
Brincavam
No colo
Que é meu;
E os olhos
Escuros
Tão puros,
Os olhos
Perjuros
Volvias,
Tremias,
Sorrias,
P’ra outro
Não eu!

-Casimiro de Abreu

domingo, 4 de maio de 2014

Tem uma caixa de memórias em cima do meu armário que me da a certeza de que o passado foi real ao menos para mim. Tem um quadro de moldura amarela com dizeres bonitos apoiado na escrivaninha que me inspira e me alegra. Minha prima me deu só por me dar e esses são os melhores presentes. O vestido de casamento da minha mãe está pendurado ao lado do armário. Espero que não amarele, ele é tão lindo. Uma pilha de livros sem muita utilidade se posiciona abaixo de um quadro de metal com fotos das pessoas que amo. Já tentei fazer nele uma arrumação bonita, mas depois de uns oito anos desisti. Tem uma prateleira com dois porta-retratos preenchidos por saudades: a praia da minha vida e os meus irmãos. Os sapatos e mochilas estão espalhados pelo chão, assim como um rádio nômade que eu uso muito pouco. Me pergunto porque tenho um chapéu de cowboy encima do teclado empoeirado que também se encontra encima do armário. Deixa pra lá. No espelho estão escritas frases que me inspiram com uma caneta marcadora preta. "Live and let die" está lá e isso é tão bonito. Tem um cartão postal com uma pintura da França e essa foi uma das lembranças que eu mais amei porque foi simples. Numa madeira avulsa acima da janela estão as lembranças que ganhei de Portugal, Holanda, França (outra) e Inglaterra. Mimos. Olho novamente para o espelho e percebo que esqueci de descrever uma menina sentada numa cadeira de madeira, digitando qualquer coisa no computador, em frente ao quadro de moldura amarela. Nenhuma pose interessante, nada que chame atenção. Um santuário neutro e convidativo apenas para aqueles que enxergam além dos olhos, para os que perguntam, para os que supõem, para os que querem saber.
Para outros:
Apenas um quarto.




Thamyres Vaccaro
"Eu gosto das pessoas que param para escutar. Que gostam de abraços, que conseguem amar. Gosto de pessoas que riem de modo estranho, choram escondidas. Gosto de pessoas que não se escondem atrás de máscaras, pessoas que são fortes, pessoas que sempre seguem em frente. Gosto de pessoas que gostam de pessoas. Gosto de pessoas que sabem o motivo de uma lágrima, que estão sempre por perto. Gosto de pessoas que nunca se vão, de pessoas que ficam, que tentam, que conseguem. Gosto de pessoas assim… Como elas são."
— Tati Bernardi. 

quarta-feira, 30 de abril de 2014

"E eu? Quem enxergará no fundo de mim, se nem eu enxergo no escuro? Ali no fundo mais fundo, onde não entra luz. Eu entro apalpando, com medo e com coragem, mas mal distingo as texturas. Intuo, às vezes. Mas enxergar, definitivamente não. Sou cega no escuro de mim, e aí reside o pavor e a liberdade."

Um trecho de um texto lindo que eu encontrei num blog chamado Bolhinhas da Lian. Segue o texto:

http://bolhinhasdalian.blogspot.com.br/2014/02/eu-estava-andando-pela-rua-do-catete.html 

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Pasto

- Eu quero que você fique pra sempre!
- Você sabe que eu não posso, eu não sou de verdade.
- Claro que é! Você está aqui! Eu posso te sentir, todos podem!
- Sim, eu estou aqui e todos podem me ver, me tocar, mas eu não sou de verdade. Eu faço parte apenas da sua imaginação, da imaginação de todos eles.
- Como assim? Então eu compartilho a mesma amiga imaginária com todos que estão ao redor?!
- Não, para alguns eu sou a garota que passa por eles com o olhar longe e o nariz empinado, para outros eu sou a freguesa distraída que pediu um McTriplo da promoção, a azarenta que confundiu os banheiros e para você eu sou a amiga que você precisava. 
- E quem são todos eles? Quem somos nós para você?
- São as pessoas que me criam, as pessoas cujas vidas eu cruzo para deixar algo, para mostrar o que não conseguem ver sozinhos, para acalentar a solidão. Lembra que você me disse que eu só atraía pessoas com algum vazio? Pessoas que precisavam de algo? Bem, talvez eu seja a própria solidão que dança com a solidão alheia para mostrar que estar sozinho pode não ser tão ruim assim, para te ensinar a fazer o melhor com aquilo que se tem.
- Mais espelho do que janela?
- Digamos que eu sou uma janela espelhada! (risos)

domingo, 9 de março de 2014

Para onde vão nossos silêncios?
Já pensou se existisse um mundo só para eles? Um lugar aonde eles ficassem guardados e as palavras que nunca dissemos ficassem ecoando sem parar. Onde não haveria profanação dos nossos sonhos, desejos e sentimentos, onde  tudo seria eternamente selado no profundo não saber.
E as palavras que engolimos, cortando nossas gargantas como espinhos, fazendo sangrar para dentro de nós mesmos chances que nunca mais teremos e trazendo consequências que mais parecem muros, se aconchegam na doce solidão deste mundo de vazios, sendo acalentadas por tantos outros erros, ou até acertos, que são o eco de mais palavras enviadas para o nimbo de nossas almas.
Deixe passar a oportunidade, deixe passar o pensamento, deixe morrer a sua língua. Aumente a natalidade desde universo de exílio que te persegue em vida e morte.
Para onde vão nossos silêncios?



Thamyres Vaccaro, depois de muito chocolate.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Sobre Nome

De maneiras diferentes posso dizer que os meus sobrenomes andam me perseguindo.
Primeiramente fui abordada por alguns amigos sobre o porque de ter mudado meu sobrenome em uma rede social e em seguida fui acusada de não amar a família do sobrenome antigo pois não o uso (oi?). Resolvi esclarecer alguns pensamentos que tenho em relação a isso, então vamos lá.
Comecemos a conversa esclarecendo que eu possuo três sobrenomes, cujo o mais bonito, na minha opinião, é o Vaccaro. Eu nunca gostei de ser igual a todo mundo e, quando pequena, achava meio clichê ter família vinda de Portugal (nacionalidade do primeiro sobrenome), por isso carregava no sotaque para falar o sobrenome italiano que todos tinham dificuldade de pronunciar.
Porém a minha mãe é uma pessoa levemente muito ciumenta e sempre me cobrou o uso do sobrenome dela, por isso decidi coloca-lo na conta da rede social que mais uso. Três anos se passaram e eu percebi que as pessoas em geral só usavam esse sobrenome! Poucas sabiam da existência dos outros dois! Logo, mudei meu sobrenome, nessa rede, para Vaccaro e deu certo, em menos de um mês já me chamavam pelo meu futuro "nome artístico". Obviamente isso me custou algumas reclamações da minha mãe, mas nada que não vá passar no futuro. 
Uma coisa interessante que ouvi de um amigo foi sobre a diferença das pessoas contidas em cada sobrenome que carrego. A "Thamyres Sobrenomedamãe", segundo ele, seria a que todo mundo conhece, que interage com as pessoas em geral. Já a "Thamyres Vaccaro" só se deixa ver por poucos, seria minha parte sentimental, que gosta de textos, fotografia, teorias e etc, tudo que quem me conhece não espera conhecer. Eu acrescentaria ainda a "Thamyres Terceirosobrenome", a qual ninguém sabe que existe e os que sabem só ouviram de sobressalto. É uma mistura de uma Thamyres que já existiu, com as marcas que a mesma deixou e talvez nem eu conheça muito bem essa Thamyres, uma Thamyres que está só no papel, no final de uma assinatura, isso quando é assinada. O próprio motivo de esconde-la é pessoal demais.
Mais uma vez me deparo com o meu mundo poliédrico e me pergunto qual pessoa estará contida nos sobrenomes alheios, qual será que eu conheço, qual será que eu nunca vi.
Quantas "você" existem em ti?



Thamyres, a Vaccaro.

" A adolescência tem um egoísmo típico, um isolamento até mesmo necessário, pois você está se descobrindo, se formando, experimentando as coisas."

- Cleibe, a sábia.
"Por  piores que sejam os meus erros, é preferível que eu seja quem sou do que ser quem eles querem que eu seja."

-TV

Carta extraviada para um blog qualquer

As coisas mudaram, eu não quero mais ser uma versão melhorada da minha mãe ou do meu pai, quero ser uma versão melhorada de mim mesma, ter meus próprios erros e acertos. Minha história está só começando, mas devo admitir que as coisas não andam fáceis para que eu possa contá-la, no futuro, do jeito que desejo.
Eu admito que tenho erros, defeitos, até mesmo falhas graves que eu preciso corrigir, mas também vejo que todos os outros tem e mesmo assim tento relevar-lhes os defeitos e amar-lhes as qualidades, deixando que sejam quem são, quem querem ser. Por este motivo me exalto quando apontam os meus defeitos de uma maneira tão hostil, pois mesmo sabendo que é a "função" deles e que é feito com amor, parece que querem sempre me mudar, que nunca aceitam quem eu sou. Pessoas muito piores que eu são amadas pelo que são, porque eu também não posso ser?!
Estou cansada de estar sempre no banco dos réus, de ser sempre julgada e condenada! Cansada de abaixar a cabeça como uma boa filha e continuar errada. A minha vida é ótima, mas eu me sinto no direito de vivê-la ao meu modo e, principalmente, de descobrir o meu modo de vivê-la! Acho péssima a ideia de viver a vida que me impõem, por mais que eu tente digeri-la diversas vezes com a ideia de uma - não tão próxima - independência.
Não estou julgando todas as atitudes deles como pais, condenando e expurgando-as, só estou dizendo o que anda me incomodando agora, nessa fase, me emudecendo cada dia mais. Me dói saber que essas ideias serão recebidas como insultos, tratadas a base de ameaças! "Você vai morar com o seu pai!", "As coisas vão mudar!", golpe baixo e sujo. Eu disse e repito que por mais incomoda que seja a situação, eu não vou abrir mão da convivência com as pessoas que eu mais amo, portanto não sairei desta casa agora.
Está na hora de vocês aceitarem que não criaram um monstro e sim uma pessoa. Uma pessoa com sonhos, vontades, desejos, direitos, deveres, a qual não é e não tem a obrigação de ser vocês. Uma pessoa que deve ser tratada como tal, como uma pessoa.





Thamyres Vaccaro

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

"Eu me contradigo? Pois muito bem, eu me contradigo. Sou amplo, contenho multidões."
- Walt Whitman


(Digamos que, após um livro fodástico que eu li recentemente, Whitman tem permeado meus pensamentos.)
"E sei que sou imortal,
sei que minha órbita não pode ser medida pelo compasso do carpinteiro,
Sei que não apagarei como espirais de luz que crianças fazem à noite com graveto aceso.

Sei que sou sublime,
Não torturo meu espírito para que se justifique ou seja compreendido,
Vejo que as leis elementares nunca se desculpam,
Percebo que não ajo com orgulho mas elevado que o nível onde planto minha casa, afinal.

Existo como sou, isso me basta,
se ninguém mais no mundo está ciente, fico contente,
e se cada um e todos estão cientes, fico contente.

Meu pedestal é encaixado e entalhado em granito.
Dou risada do que você chama de decomposição,
sei da amplidão do tempo.

Sou poeta do corpo,
e sou o poeta da alma..."

- Walt Whitman
Todo mundo tem a sua carnificina pessoal.
Estamos constantemente matando a nós mesmos, seja para agradar aos outros, parar nos agradar, para criar um eu melhor, mais forte...
A vida é o ato de matar a si mesmo a todo momento.


Thamyres Vaccaro

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Diálogo impróprio

- Eu sou um babaca.
- Não, você não é.
- Você mesma me disse isso.
- Você não um babaca, você só é uma pessoa com atitudes babacas.
- Você é aquilo que você faz.
- Não, você é um conjunto de fatores. Você é o que faz, o que pensa, o que sente. Você é muito mais que um babaca. Você é muito mais que isso.




Thamyres Vaccaro

domingo, 2 de fevereiro de 2014

http://jardimdomundo.wordpress.com/

Muito, muito bom ^^

( Thamyres, lembre de visitar esse site pfv. Obrigada e.e)

Ela era assim




Ela disse pra mim que precisava de uma nova vida, que tinha estragado tudo nessa e não sabia como consertar. E ela foi embora, foi para longe, deixou tudo e todos para trás. Ninguém soube dela por um bom tempo, mas alguns receberam cartas, uma flor, uma foto...eu recebi um lírio com um bilhete aonde ela dizia que se perder talvez fosse se encontrar.
No fundo ela era assim. Ela sabia o que queria, ela sabia que tinha que ir além, que tinha que ir muito além para provar para si mesma quem era de verdade pois aqui ela sempre foi a boa menina que aceitava os limites que lhe davam e ainda achava aquilo muita coisa. Não queria ser má ou rebelde, ela só queria ser ela mesma, sem ter que se ponderar, que agradar, que alcançar expectativas alheias. Ela odiava se sentir presa.
Ela amava tudo ao seu redor, ela queria ajudar todos, queria fazer diferença na vida de cada um com quem falava, mas uma hora aquilo a saturou. Era muito muito por ali. Tinha pouco espaço para ser quem ela queria soterrada em meio a tanta gente que a conhecia, ou pelo menos que julgava conhece-la.
Sua mãe achou que a culpa foi dela, que não conseguiu faze-la feliz, o que era um grande engano. Ela era a mais feliz das pessoas com a mais feliz das vidas e tinha a mais amorosa das mães. Ela só precisava de mais, ela só precisava de espaço. Precisava pegar um carro e ir pra longe porque algo lhe dizia que tinha algo nesse longe, que tinham novas experiências, experiências sem as quais ela não conseguiria ser quem queria ser. Ela se prendeu ali por tanto tempo para não machucar a mãe...
As vezes ouço dizerem que ela sumiu de vez, que esqueceu todos e por eles foi esquecida. Equívocos. Aposto que ela lembra deles todos os dias, em todas as paisagens que vê e quem sabe até ligue para dar notícias (ela não aguentaria deixar a mãe sem notícias). Aposto que está em algum lugar com os pés para cima e a música no volume mais alto. Mainstream, mas ela não se importava em ser mainstream. Aposto também que ela vai voltar. Vai voltar como se não tivesse feito nada demais, como se passar um tempo fora fosse algo normal e vai voltar uma pessoa nova. Os seus problemas não estarão resolvidos e a sua vida não será um mar de rosas onde tudo é perfeito, mas ela vai ter feito o que precisava fazer e vai ter chegado até onde ela precisava chegar.
Ela era assim.




Thamyres Vaccaro

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

"Não se pode pensar que as coisas são para sempre quando nem mesmo o objeto de aplicação delas é para sempre. Nem mesmo você é para sempre."
- Júlia Fonseca em um debate sobre amor eterno
"Tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba. Atreve-se o tempo a colunas de mármore, quanto mais a corações de cera ! 
São as afeições como as vidas, que não há mais certo sinal de haverem de durar pouco, que terem durado muito. São como as linhas, que partem do centro para a circunferência, que quanto mais continuadas, tanto menos unidas. Por isso os antigos sabiamente pintaram o amor menino; porque não há amor tão robusto que chegue a ser velho. De todos os instrumentos com que o armou a natureza, o desarma o tempo. Afrouxa-lhe o arco, com que já não atira; embota-lhe as setas, com que já não fere; abre-lhe os olhos, com que vê o que não via; e faz-lhe crescer as asas, com que voa e foge. A razão natural de toda esta diferença é porque o tempo tira a novidade às coisas, descobre-lhe os defeitos, enfastia-lhe o gosto, e basta que sejam usadas para não serem as mesmas. Gasta-se o ferro com o uso, quanto mais o amor ?! O mesmo amar é causa de não amar e o ter amado muito, de amar menos."

-Padre Antônio Vieira

(Quando li esse texto senti algo inexplicável! Um dos mais bonitos e que tem mais a ver com o que eu penso da vida.)

domingo, 26 de janeiro de 2014

Teoria dos Poliedros



No fundo ninguém é conhecido por inteiro, tudo possui um lado encoberto o qual não é possível ao menos ser pensado. Todos somos aquilo que os outros pensam de nós, o que nós pensamos de nós mesmos e somos também algo indefinido que não precisa ser explicado ou pensado, se basta no verbo ser pois apenas é. Nossa essência. Esta é desconhecida e se não o fosse, não mais seria a si própria, tornando-se apenas parte do que é pensado por alguém. Possuímos diversas faces em um único objeto. As palavras que nos definem apenas nos limitam a um adjetivo ou pensamento que não é a verdade ao todo. Vivemos cercados de pessoas poliédricas sendo nós mesmos um poliedro com um número infinito de lados. E nesse mundo multifacetado quem ousará julgar o outro? Quem duvidará da existência de um eu melhor? Quem ouvirá a um lado só?




Thamyres Vaccaro, ou mais que isso.

sábado, 25 de janeiro de 2014

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Filosofia da morte


Três e quinze da tarde de uma quinta-feira exaustiva e me encontro sentada para, talvez, a minha terceira aula de filosofia do período (adoro as aulas, mas também adoro tempo vago). Em meio à olhos e rabiscos que surgem na minha agenda, o professor me faz recordar uma conversa que tive com um amigo semana passada na qual fui mal interpretada: 
- A beleza da vida consiste na morte - disse a ele. Fui chamada de mórbida. 
Agora vejam, a vida só é bela e explicável através da morte, da finitude que esta dá as coisas. Tudo é belo porque muda, porque acaba e isso concede a cada ação e momento uma profundida que seria banal se o fim não fosse certo. As coisas são inesquecíveis pelo simples fato de estarem no passado, local inalcançável se não pelas memórias no qual nada pode ser mudado, apenas o ângulo de observação é variante. Como o próprio mestre disse " toda ação é eterna, não se pode voltar atrás". 
Eu, particularmente, não acredito no verbo voltar por mais que o use. Ouvi uma vez alguém dizer que "quando voltares eu não serei mais eu, você não mais será você e o rio que nos banha tão pouco será o mesmo" e tomo isso como verdade desde então. O segundo é a única ferramenta que temos no chamado presente e ao esgotar-se já nos encontramos em um presente diferente e aquele que se foi já é passado.
Como não admirar a esperteza da vida? Para darmos valor as coisas torna-as finitas e o medo de nunca mais as termos deveria ser o suficiente para fazermos o melhor das mesmas enquanto as temos, enquanto temos o tempo, enquanto o segundo eminente se encontra em nossas mãos, no presente, no agora.
Pessoa já dizia: "Tudo quanto vive, vive porque muda; muda porque passa; e, porque passa, morre. Tudo quanto vive perpetuamente se torna outra coisa, constantemente se nega, se furta à vida."
E mais uma vez um brinde a morte em vida!



Thamyres Vaccaro

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014



"Talvez seja mais como o que você falou antes, rachaduras em todos nós. Como se cada um tivesse começado como um navio inteiramente à prova d’água. Mas as coisas vão acontecendo… as pessoas se vão, ou deixam de nos amar, ou não nos entendem, ou nós não as entendemos… e nós perdemos, erramos, magoamos uns aos outros. E o navio começa a rachar em determinados lugares. E então, quando o navio racha, o final é inevitável. Quando começa a chover dentro do Osprey, ele nunca vai voltar a ser o que era. Mas ainda há um tempo entre o momento em que as rachaduras começam a se abrir e o momento em que nós nos rompemos por completo. E é nesse intervalo que conseguimos enxergar uns aos outros, porque vemos além de nós mesmos, através de nossas rachaduras, e vemos dentro dos outros através das rachaduras deles. Quando foi que nos olhamos cara a cara? Não até que você tivesse visto através das minhas rachaduras, e eu, das suas. Antes disso, estávamos apenas observando a ideia que fazíamos um do outro, tipo olhando para sua persiana sem nunca enxergar o quarto lá dentro. Mas, uma vez que o navio se racha, a luz consegue entrar. E a luz consegue sai."

- Cidades de Papel


"Quando os adultos dizem: ‘Os adolescentes se acham invencíveis’, com aquele sorriso malicioso e idiota estampado na cara, eles não sabem quanto estão certos. Não devemos perder a esperança, pois jamais seremos irremediavelmente feridos. Pensamos que somos invencíveis porque realmente somos. Os adultos se esquecem disso quando envelhecem. Ficam com medo de perder e fracassar. Mas essa parte que é maior do que a soma das partes não tem começo e não tem fim, e, portanto, não pode falhar."
- John Green