sábado, 28 de setembro de 2013

"Achei que você seria uma pequena bailarina e rodopiaria, distraída, pela imensa calçada dessa avenida confusa que é a vida. E diria: “olha, eu venci, eu venci, olha, eu venci”. Claro que venceu! Quem mais teria a sua coragem de convencer aquele medo de não dar certo que tudo pode dar certo. E deu (né, deus?). Quem mais teria a sua coragem de encarar a própria timidez para vencer e convencer os idiotas que cada escolha é uma bagunça.

Você parece uma dançarina russa: tem as penas e as pernas do tamanho do mundo e se curva diante de uma plateia que fala outra língua. Interpreta o Lago dos Cisnes com maestria, mas eles cismam em dizer que você tropeçou no primeiro ato, e aplaudem o seu mérito sem mérito algum: as palmas estalam por mera educação. Bobos são eles que não sabem a beleza de tropeçar no chão e continuar em pé, no céu, até o fim, até as cortinas cortarem a plateia, até você se enfiar no corredor do banheiro e esfregar toda a vergonha no camarim, até trocar de roupa e cheirar o pó dos seus sonhos etéreos e rir desesperada dos seus desesperos eternos no colo da camareira, até deixar a maquiagem afundar no lago salgado das suas lágrimas e receber o carinho ilusório de todos os cisnes: não chora, pequena bailarina, você é maior do que o mundo!

Eu acendo um cigarro, bebo um conhaque, me deixo levar por um sonho qualquer na beira da cama e juro que acreditei que você pudesse ser feliz, contradizendo aquela plateia de idiotas que você mesma criou. Sem drama você viveria em uma caixinha de música, daquelas que se vendem perto do Manège du Sacré-Coeur, em Montmartre. E alegraria minha ida, minha volta com seu sorriso bêbado e une bouteille de vin. E a gente se amaria feito sei lá o quê. Deve ser bom amar assim pour toujours… Mas, quem vai nos aplaudir, mon amour?"

- Eu me chamo Antônio

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