Tem uma caixa de memórias em cima do meu armário que me da a certeza de que o passado foi real ao menos para mim. Tem um quadro de moldura amarela com dizeres bonitos apoiado na escrivaninha que me inspira e me alegra. Minha prima me deu só por me dar e esses são os melhores presentes. O vestido de casamento da minha mãe está pendurado ao lado do armário. Espero que não amarele, ele é tão lindo. Uma pilha de livros sem muita utilidade se posiciona abaixo de um quadro de metal com fotos das pessoas que amo. Já tentei fazer nele uma arrumação bonita, mas depois de uns oito anos desisti. Tem uma prateleira com dois porta-retratos preenchidos por saudades: a praia da minha vida e os meus irmãos. Os sapatos e mochilas estão espalhados pelo chão, assim como um rádio nômade que eu uso muito pouco. Me pergunto porque tenho um chapéu de cowboy encima do teclado empoeirado que também se encontra encima do armário. Deixa pra lá. No espelho estão escritas frases que me inspiram com uma caneta marcadora preta. "Live and let die" está lá e isso é tão bonito. Tem um cartão postal com uma pintura da França e essa foi uma das lembranças que eu mais amei porque foi simples. Numa madeira avulsa acima da janela estão as lembranças que ganhei de Portugal, Holanda, França (outra) e Inglaterra. Mimos. Olho novamente para o espelho e percebo que esqueci de descrever uma menina sentada numa cadeira de madeira, digitando qualquer coisa no computador, em frente ao quadro de moldura amarela. Nenhuma pose interessante, nada que chame atenção. Um santuário neutro e convidativo apenas para aqueles que enxergam além dos olhos, para os que perguntam, para os que supõem, para os que querem saber.
Para outros:
Apenas um quarto.
Thamyres Vaccaro
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