sexta-feira, 3 de janeiro de 2014



"Talvez seja mais como o que você falou antes, rachaduras em todos nós. Como se cada um tivesse começado como um navio inteiramente à prova d’água. Mas as coisas vão acontecendo… as pessoas se vão, ou deixam de nos amar, ou não nos entendem, ou nós não as entendemos… e nós perdemos, erramos, magoamos uns aos outros. E o navio começa a rachar em determinados lugares. E então, quando o navio racha, o final é inevitável. Quando começa a chover dentro do Osprey, ele nunca vai voltar a ser o que era. Mas ainda há um tempo entre o momento em que as rachaduras começam a se abrir e o momento em que nós nos rompemos por completo. E é nesse intervalo que conseguimos enxergar uns aos outros, porque vemos além de nós mesmos, através de nossas rachaduras, e vemos dentro dos outros através das rachaduras deles. Quando foi que nos olhamos cara a cara? Não até que você tivesse visto através das minhas rachaduras, e eu, das suas. Antes disso, estávamos apenas observando a ideia que fazíamos um do outro, tipo olhando para sua persiana sem nunca enxergar o quarto lá dentro. Mas, uma vez que o navio se racha, a luz consegue entrar. E a luz consegue sai."

- Cidades de Papel


"Quando os adultos dizem: ‘Os adolescentes se acham invencíveis’, com aquele sorriso malicioso e idiota estampado na cara, eles não sabem quanto estão certos. Não devemos perder a esperança, pois jamais seremos irremediavelmente feridos. Pensamos que somos invencíveis porque realmente somos. Os adultos se esquecem disso quando envelhecem. Ficam com medo de perder e fracassar. Mas essa parte que é maior do que a soma das partes não tem começo e não tem fim, e, portanto, não pode falhar."
- John Green 

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Gritos do silêncio


E cá estamos nós, mais uma vez cara a cara.
Falo com várias pessoas, tento faze-las entender o que se passa aqui dentro, enfraqueço e desabo diante das mesmas e por fim recorro novamente ao bom e velho papel no qual vomito palavras e sentimentos esgarçados que de nada mais valem aqui dentro, que não possuem mais espaço nessa alma tão grande e ao mesmo tempo tão cheia.
O que queres saber? Ah, aquele clichê de como me sinto? Queres a verdade? Não sinto. 
Na verdade sinto. Sinto sentimentos conturbados que, como duas ondas dessincronizadas, provocam um silêncio absoluto no meu ser. Cada lembrança rodeia meus pensamentos fazendo ecoarem risadas e frases que me torturam, me culpam, me assombram e me saldam. Mergulho numa tristeza, numa saudade, uma vontade de fazer diferente e me debato por dentro gritando e lutando em vão para não me afogar. Mas dentro de mim só há lugar para o silêncio.
Então finjo. Finjo aceitar que as coisas terminaram assim. Finjo aceitar a falta de respostas, a frieza e a indiferença. Finjo tão bem que engano até a mim mesma. Mas é no meio do meu fingimento, dos meus risos agudos e da minha hibernação, que ouço uma música, que lembro de um momento, que acho falta de uma coisa e me encontro novamente submersa aonde os choros são secos e ninguém pode nota-los.
E eu entendo que não há um retorno, que o que passou é passado e por aí vai, mas estou presa a uma sentimento de outrora, que se um dia fez sentido, hoje me serve como um peso, um peso do qual me recuso a me desfazer. Talvez eu tenha me apegado a esta dor como a única coisa que resta de uma história banal e me negue a larga-la, a deixar a ferida cicatrizar por não querer virar a página, como se expressasse todo o meu desejo de que houvesse sido diferente nela e quando ela se for tudo terá ido também.
Então olho ao redor e estão todos conversando. Melhor prestar atenção no mundo lá fora e agir normalmente. Berro novamente dentro de mim. Silêncio. Me faço surda. Todos riem de alguma piada na qual não prestei atenção. Meu rosto imóvel se desdobra num sorriso aberto. Um amigo se aproxima e diz:
"- Fico feliz de te ver contente."
Continuo sorrindo.
Silêncio.



Thamyres Vaccaro

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Anjo Caído

Entrei por um beco estreito e úmido entre a Best West e a Oriun.  As lojas estavam cheias de clientes, de jovens raparigas à senhores engravatados, ali se encontrava todo tipo de gente. Suas vozes zumbiam em minha cabeça. Segui rumo ao número 28 tentando trombar o menos possível nas pessoas. De uma confeitaria saiu um senhor baixo de cabelos e bigode brancos usando uma cartola preta a qual combinava com seu terno perfeitamente cerzido e sua bengala esmeralda na qual se via enrolada uma cobra de prata reluzente. Vinha conversando com uma mulher alta e magra, aparentando estar quase nos temidos oitenta, com uma postura ereta e superior em seu taiêr roxo e algumas penas bem acima da cabeça. Notei que conversavam algo sobre a queda no valor de Achernar, a estrela mais brilhante da constelação de  Eridanus, que pelo visto havia diminuído em dois pontos percentuais. Talvez mais tarde eu devesse investir nela já que no dia seguinte o quadro voltaria a ser estável e isso provavelmente me renderia um bom dinheiro para o negócio que eu tinha a tratar.
Andei pelo beco até chegar a uma vitrine empoeirada contendo gaiolas, frascos coloridos, almofadas e outras quinquilharias empilhadas atrás de uma placa aonde se lia em letras vermelhas " Adquira aqui seu pó de Maasym com 25% de desconto e corrija os erros do passado!". Botei a mão no bolso da calça e peguei um papel dobrado. Era ali mesmo, "Beco Andrômeda, número 28 , Luminóis e Penugens - Consertos ".
Entrei e me deparei com pilhas de objetos velhos, gaiolas enferrujadas, relógios quebrados, antigos tronos desforrados, roupas, narguilés, entre outros. Me dirigi até o final da loja aonde, sentada de costas no meio de um monte de almofadas, havia uma moça curvada sobre um enorme escudo entalhado em madeira.
- Olá.
Ela se virou rapidamente e seu cabelo caiu pelos ombros. Era uma bela jovem que aparentava estar na flor de seus 20 anos. O castanho cabelo, longo e rebelde, emoldurava seu rosto competindo com seus grandes olhos amendoados de uma profundeza netuniana.
- Olá! No que posso ajudar? Disse sorrindo e se levantando para apertar a minha mão. 
Vestia uma calça jeans desbotada, blusa preta desfiada e tênis vermelho rasgado.
- Queria saber se vocês podem consertar um objeto antigo, coisa de família..
- Deixe-me ver o que é. Aqui consertamos de quase tudo! 
Tirei do bolso um saquinho e entreguei a ela. Nele havia o relógio de bolso que havia encontrado enterrado na casa da família e que estava emperrado, sem que eu pudesse abrir.
- Nossa! Nunca vi um desses antes! Meu avô vai adorar conserta-lo!
- Porque? O que tem demais? É raro?
- O que? Raríssimo! Isso é um relógio de Omicron, guarda em eu interior todos os segredos de quem o usa e reserva a última luz da alma, o último raio de esperança. É de uma enorme eficiência! Se eu fosse você o guardava bem, alma é uma coisa bem valiosa no mundo de hoje. - Disse enquanto guardava novamente o relógio na bolsa.
- Nossa, não sabia que fazia algo além de ver mostrar as horas. Isso tem conserto?
- Claro, quase tudo tem conserto, ainda mais quando se trata da alma. Sempre há um jeito de repara-la. 
Anotou algo em um pedaço de papel e o grudou ao saquinho com uma fita.
- Por aqui por favor. Vou guarda-lo em uma sala específica.
A segui por um corredor de tábua corrida que ficava a direta do salão principal da loja. Passamos por várias portas fechadas nas quais haviam entalhados nomes como " Tempo" "Sentimentos" " Olhos" e " Sangue". Entramos por uma porta na qual havia escrito "Alma". As paredes eram cobertas por estantes entulhadas de objetos que pareciam ter luz própria de um fraco branco e belo.
- Deve estar pronto daqui a 2 mêses. Ligaremos para avisar.
- Que lugar é esse? Perguntei, ainda embasbacado com a triste beleza do local, mergulhado em uma aura misteriosa e intensa.
- É aonde guardamos os objetos ligados a alma do ser humano. Temos de tudo aqui, acredite.
E ela não estava mentindo. Talheres, flores, cacos de vidro, um pote com uma estranha chama roxa, algodão.. tinha de tudo ali! Era impossível que tudo aquilo estivesse de alguma maneira ligado a diferentes almas. Que sentido havia de ter um algodão com aquilo?
Em um canto do quarto vi então uma pilha de asas negras e brancas, abaixo de uma placa com os dizerem "Sem conserto."  
- E aqueles ali? Por que não tem conserto? Apontei na direção da pilha.
Ao olhar as asas vi surgir uma tristeza vindo da profundeza dos olhos da menina que sorriu carinhosamente e disse:
- Essas são as minhas preferidas, asas de anjos!
- Como assim? Se as asas quebram como os anjos voam?
- Não voam, são anjos caídos. - Dessa vez pude sentir a amargura em sua voz.
- O que são anjos caídos?
- Bem.. é uma história triste e encantadora, melhor que não ouça. 
Ela já estava no meio do corredor caminhando novamente para a sala principal. 
- Agora estou curioso! O que são anjos caídos? Por que é uma história triste?
- Porque trata da alma! - disse se virando para mim com aspereza. Olhou em meus olhos por alguns instantes e eu sustentei seu olhar. Parecia que ela estava lendo o interior da minha alma para saber se eu era ou não digno de ouvir sua história.
- Uma vez, um anjo encontrou a quem amar além de Deus. Ele amou e se entregou de corpo e alma, com o mais íntimo do seu ser. Porém, quem ele amou o deixou, levando parte das asas do anjo. Esse é um anjo caído, um anjo de asa quebrada que não sabe mais dar amor e se entregar, porque um dia algo o fez parar de voar. São extremamente frágeis e belos, porém se aproximar de um deles pode ser fatal.
- E porque você não pode faze-los voar novamente?
- Porque eu não sei consertar asas.

[Does not continue.]

Thamyres Vaccaro

sábado, 28 de setembro de 2013

"Achei que você seria uma pequena bailarina e rodopiaria, distraída, pela imensa calçada dessa avenida confusa que é a vida. E diria: “olha, eu venci, eu venci, olha, eu venci”. Claro que venceu! Quem mais teria a sua coragem de convencer aquele medo de não dar certo que tudo pode dar certo. E deu (né, deus?). Quem mais teria a sua coragem de encarar a própria timidez para vencer e convencer os idiotas que cada escolha é uma bagunça.

Você parece uma dançarina russa: tem as penas e as pernas do tamanho do mundo e se curva diante de uma plateia que fala outra língua. Interpreta o Lago dos Cisnes com maestria, mas eles cismam em dizer que você tropeçou no primeiro ato, e aplaudem o seu mérito sem mérito algum: as palmas estalam por mera educação. Bobos são eles que não sabem a beleza de tropeçar no chão e continuar em pé, no céu, até o fim, até as cortinas cortarem a plateia, até você se enfiar no corredor do banheiro e esfregar toda a vergonha no camarim, até trocar de roupa e cheirar o pó dos seus sonhos etéreos e rir desesperada dos seus desesperos eternos no colo da camareira, até deixar a maquiagem afundar no lago salgado das suas lágrimas e receber o carinho ilusório de todos os cisnes: não chora, pequena bailarina, você é maior do que o mundo!

Eu acendo um cigarro, bebo um conhaque, me deixo levar por um sonho qualquer na beira da cama e juro que acreditei que você pudesse ser feliz, contradizendo aquela plateia de idiotas que você mesma criou. Sem drama você viveria em uma caixinha de música, daquelas que se vendem perto do Manège du Sacré-Coeur, em Montmartre. E alegraria minha ida, minha volta com seu sorriso bêbado e une bouteille de vin. E a gente se amaria feito sei lá o quê. Deve ser bom amar assim pour toujours… Mas, quem vai nos aplaudir, mon amour?"

- Eu me chamo Antônio

quinta-feira, 26 de setembro de 2013



Por que eu olho tanto o céu? Quer mesmo que eu te responda? É um pouco longo, filosófico e sentimental demais.. lá vai.
Eu gosto primeiramente das estrelas. Não por serem belas e luminosas, pra mim elas vão muito além disso. As personifico. São serem muito acima de nós, serem belos e que me acompanham todas as noites desde que vim para esse mundo. Iluminam cada sonho e sabem cada sentimento que se passa no meu coração. Portanto, se ninguém há de me conhecer melhor do que eu mesma, talvez as estrelas o façam.
Já com Sol é uma relação de agradecimento e malandragem. Nas manhãs que passo pela passarela a caminho do colégio, é inevitável pensar que todas aquelas pessoas, meio sonolentas ainda que apressadas, só estão ali por causa dele. Olho pra ele e lhe lanço um sorriso malicioso como que esperando para ver o que aquele novo dia me reserva e ele me faz a mesma pergunta. Ando buscando-o, como um inseto que voa para a luz, e quando finalmente seus raios me tocam sei que estou viva e agradeço por isso, por poder senti-lo. Mesmo quando tudo esta ruim eu sei que ainda poderei vê-lo na manhã seguinte e isso me traz uma reconfortável sensação de que apesar de tudo, tenho algo ao qual me apegar.
A Lua.. bem, não somos tão chegadas assim. Admiro sua beleza, a invejo, a exalto. Mando-lhe sorrisos e ela me retribui com uma confirmação da minha inferioridade que me é muito satisfatória. Mas tenho que admitir que ela me intimida um pouco. Não sei muito bem explicar.. Ela me parece uma mistica rodeada de uma aura prateada e hipnotizante que carrega nos lábios um doce sorriso, e me oferece contar belas histórias de amor e paixão que me deixariam mortificada ouvindo por horas a fio, embriagada com cada palavra que saísse de sua boca. Histórias como as que nos contam quando somos crianças. Histórias que trançam fios de esperança em nossos corações e que fazem de nós mais puros e ingênuos. É, essa é a habilidade da Lua, nos despir de nossas camadas e escudos, revelando o que de mais puro e frágil escondemos. Ela me assusta.
Por último as nuvens, que aparecem quando bem entendem e se vão com a mesma facilidade. São belas porém efêmeras, te encantam e te dispersam em uma única olhada. Brincam no céu fazendo em um jogo de mímica com suas formas para que as desvendemos. Passam rápido, num piscar de olhos, mas trazem consigo a beleza. Se vestem com os primeiros raios de sol da manhã, fazendo charme e se colorindo como crianças com as jóias da mãe. Eu simplesmente amo o amanhecer no verão.
E é apenas por isso, por esses quatro motivos que me trazem a paz de saber que a vida é algo muito maior, vai muito além de mim mesma, que eu amo e observo o céu e seus mistérios que ficam tão claro no meu coração como o azul que nele se tinge ao meio dia ou as nuvens em cumulus que vejo da minha janela ao entardecer.
Por isso eu olho tanto o céu.

Thamyres Vaccaro

sexta-feira, 13 de setembro de 2013


" Tenho medo de racionalizar demais e te deixar passar ou de romantizar demais e te assustar. Medo de que os extremos e o "demais" te levem embora por culpa da minha falta de jeito. Eu só sei abraçar, é o bastante pra você? Eu sei escutar, cuidar.. Aliás, acho que nasci para cuidar. Posso cuidar de você? A gente finge que nem é nada, é costume mesmo, rotina. Eu finjo que é puro hábito e você finge que aceita porque não sabe dizer "não". 
E então, vamos enganar a vida?"

Autor desconhecido