quinta-feira, 18 de junho de 2015

Pena optativa



Deitados na sua cama com o sol insistindo em passar pela persiana e o ventilador barulhento de sempre, você dormia enquanto eu pensava.
Pensava no tempo que passara desde a última vez que eu havia me sentido "a gente" com você. Parecia que tinha se passado meses sendo eu, um mundo de coisas, e você. E eu estava tão de saco cheio desse mundo de coisas. Eu ESTOU tão de saco cheio. Por que as coisas não voltam a ser fáceis como antes? Por que a todo momento parece que a vida quer me avisar que o fim está próximo ou, simplesmente, me pergunta quanto tempo mais eu vou aguentar?
Eu também me perguntava. Me perguntava se valia a pena continuar nessa vida cheia de distâncias para ter você inteiro só por algumas horas em um ou dois finais de semana. Será que não seria melhor se tivéssemos aquelas relações casuais? Quando desse pra se ver a gente marcaria, se não desse, ok. Sem nenhuma expectativa, sem nenhuma cobrança... Mas eu não sou do tipo que consegue ter relações casuais duradouras, que não espera nada, que não cobra nada. Eu tento, mas não sou.
Quanto tempo levaria até nos distanciarmos por completo? Até nos perdermos um do outro a ponto de não nos lembrarmos mais do porque estamos juntos? Até nos tornarmos completos estranhos?
Cansada de dilemas, fechei os olhos. Pelo menos aquele dia valera a pena. Valia a pena não ter te encontrado (ou nos encontrado, como queira) durante meses, só por ter você dormindo do meu lado mais uma vez, exalando o cheiro do seu desodorante, passando a barba quase ruiva no meu pescoço e me trazendo mais pra perto num abraço, enquanto esconde a cara no travesseiro e murmura alguma coisa. Valia a pena o silêncio que você proporcionava em mim e todas as dúvidas que vinham no pacote.
Valia a pena estar com você.



Thamyres Vaccaro

terça-feira, 9 de setembro de 2014



Ela é um campo de margaridas brancas aonde o orvalho se aconchega pela manhã, se aninhando em suas folhas, umedecendo seus cabelos e indo embora com os primeiros raios. Ela é um piano velho, com a madeira riscada, desafinada e fora de moda, perdida numa mata qualquer sem ninguém lhe afagar as teclas para ouvir a música que toca dentro dela. É uma estante de livros encapados, coberta pela poeira do tempo a qual dança junto a luz do sol e transforma em belo o que antes era imundo. E um pulo no abismo não poderia ser mais perigoso, pois sua vontade é variante, seu ócio se resume em desejo e o querer e o não querer a liberta. Olhos. Te devora os olhos como quem quer lhe devorar a alma. Os segredos, Os pensamentos. E então acaricia a fera que há em ti. A acalenta, a afaga...acalma o bicho para depois o entregar ao caçador, recebendo dos dois agradecimentos e juras de amor. A flor de lótus no ombro direito já não a reprime mais. Leva os braços aos céus na tentativa de tocar as estrelas e eu, por vezes, eu acredito que o consiga. O universo parece invadi-la afogando lhe os pulmões e num ato falho de medo e insegurança queima seus desejos, liberta seus monstros, afugenta seus amores e perde-se na mata que habita seu peito, mostrando por fim sua própria íris, sua própria alma, seus próprios segredos.

Thamyres Vaccaro

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Ele volta da cozinha com uma taça de gim na mão e senta no sofá. Gim é estigante demais e talvez isso o divirta em mais uma das monótonas noites em que ele é liberado do trabalho mais cedo. Ela se mexe na poltrona para que o livro que está lendo fique melhor posicionado sob a luz do abajur.
Ele pergunta como foi o dia, ela responde que foi normal. Eles se detestam. Não, eles não se detestam, eles detestam o que significam um para o outro.
Ele toma um gole do gim e pensa em folhear um pornô no banheiro. Não, ficará mais avontade quando ela for dormir. Ele talvez pudesse, mas não a trai, apesar de tudo ela é uma pessoa boa e muitos anos atrás ele gostava dela.
Ela sente seus olhos se fechando e se pergunta se as palavras que lê ainda fazem sentido em sua cabeça. Ela pensa em acompanha-lo em uma taça de gim, mas a bebida é instigante demais e talvez a situação os force a conversar. Ela está cansada de conversar com ele. Fecha o livro.
Ela pensa que casou jovem demais. Ele pensa que tinha mais opções. Ele era engraçado, ela lembra. Ele se pergunta porque não viajaram o mundo. Ele tirou sua virgindade, naquela época isso era muito importante. Três anos de namoro. Eles estavam acostumados um com o outro, porque não casar?
Ela o encara por um segundo. Pensa em confronta-lo e mostrar o tédio que o casamento se tornou. Ele sustenta o olhar. Ela sabe que ele sabe. Levanta e avisa que vai dormir, apagando a luz do abajur. Ele lhe deseja boa noite, acaba de beber o gim e segue para o banheiro.

Thamyres Vaccaro

domingo, 3 de agosto de 2014

Esse é um trecho do discursos de formatura de um formando do meu colégio, o qual ele direcionou aos pais e eu achei muito coerente.
"Tivemos que vencer preconceitos pessoais de ideologias, preconceitos familiares que nos foram instituídos, preconceitos existências por medo de não sermos suficientemente bom para VOCÊS, quando na verdade nossa obrigação é sermos o suficiente para nós, sermos realizados em nossa vida pessoal, e que essa sensação maravilhosa possa ser transmitida a todos os presentes em nossas vidas, seja de maneira diária, seja como um contato que dura com estações. Somos frutos de nossos erros, em especial, dos erros que vocês provavelmente condenariam, e tenho orgulho de ter tido chance de cometer erros que se dependesse de vocês, nunca cometeríamos. Na verdade, são erros mesmos? Ou cada um instruiu o outro do que é um erro a partir de mágoas e decepções? Vejam como somos belas flores que crescemos em um campo selvagem, porém repleto de vida e que nunca seriamos tão belos a nossa maneira, e nem tão bem desenvolvidos, se ficássemos expostos simplesmente em seus jardins. "

sábado, 14 de junho de 2014

Eco irrevogável e o Grande Talvez


Lendo, talvez, o quarto livro aonde a personagem principal é uma garota misteriosa que se vai antes que os que a amavam possam realmente conhece-la, eu me peguei pensando se gostaria de ser essa garota, se gostaria de ser eternamente um mistério, um Grande Talvez. Eu sei, é irremediável o fato de que os que me amam não me conhecem ao todo e gostam de mim pela ideia que fazem de quem sou, mas será que, se um dia fizerem minha biografia, não esquecerão um detalhe que para mim era importante e que talvez nem tenham notado? Será que se importarão com as minhas lembranças na caixa, com os meus pensamentos em cadernos e meus textos postados ou apenas jogarão tudo fora com o intuito de tornar o sofrimento mais suportável? Eu gostaria que todos que me amaram lessem tudo, quem sabem guardassem ou devolvessem as lembranças as pessoas que participaram das mesmas, e buscassem conhecer quem eu não mostrava em vida. Não gostaria que minha vida fosse toda esquecida e dentro de cinquenta anos ninguém mais soubesse quem foi Thamyres Vaccaro, porém aceito o fato de que, depois da minha morte e depois da morte daqueles cujas vidas eu marquei, eu serei apenas um registro de nascimento num cartório carioca e minha contribuição para a humanidade estará enterrada em diversas covas. Eu aceito.
E isso acontecerá com cada um de nós, mesmo com aqueles que serão lembrados, para quem farão estátuas e documentários. A pessoa, suas lembranças, sentimentos, a mente e a vida em si se vai. Você deixa para o mundo a contribuição que faz na vida das pessoas e a partir do momento em que essas pessoas também se vão, sua vida se tornará apenas um eco na sucessível cadeia de contribuições que rege o mundo. Você atuou na vida de uma pessoa A que irá atuar na vida de uma pessoa B e assim por diante e esse é o único modo de imortalidade que existe, o silencioso e indigente. Você atua apenas na forma de energia.
E quando eu digo contribuir, atuar, eu não quero dizer apenas com grandes feitos, mas também com simples palavras, cumprimentos. Tudo fica armazenado no histórico de vida da pessoa, como se tivéssemos uma memória de dados que armazena tudo que nos acontece ao longo da vida.
Essa é a Thamyres, alguém que talvez não tenha mostrado o máximo ou o melhor, que talvez tenha partes de si jogadas fora, queimadas, que deixará tanta tristeza em morte como deixou alegria em vida e que um dia será completamente esquecida pelos vivos e será apenas um eco.
E ela aceita isso.




Thamyres Vaccaro