segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Eu cresci com meus pais ouvindo Caetano Velloso, Elis Regina e Geraldo Azevedo, me explicando as letras e me contando do tempo da ditadura, da tortura e como aquilo tudo fazia parte de um passado sombrio. Cresci com meu pai exaltando os hippies, a vida sem moldes, sem imposições sociais, a liberdade que ele tanto viveu na juventude. Minha mãe era feminista, lutou contra todos para traçar seu próprio destino, trabalhou desde cedo, nunca foi sustentada por homem, me ensinou a ser independente, a estudar, a não ter vergonha de ser quem eu sou. Minha família era cristã. Falavam do amor ao próximo, falavam de dar a outra face, de ajudar os pobres, sobre sermos todos iguais e não nos julgarmos. Falavam sobre fé.
Hoje me sinto um pouco perdida dentro da minha família. Me sinto como uma pequena personagem de um cartunista satírico, perguntando inutilmente aos meus parentes onde foi parar tudo aquilo que me ensinaram ao longo dos anos, todo o amor que me ensinaram a espalhar e toda a força que me fizeram ter para lutar. Será que eles não acreditam mais? Será que o Deus deles mudou?
Eles se recusam a me ver como um ser pensante, tentam diminuir minhas opiniões ridicularizando-as e apontando que são fruto de uma manipulação do governo, da internet, do comunismo folclórico em que eles acreditam. Eles não querem dialogar. Eles não pedem desculpas.
Logo eu, que sempre me mantive sentada na sala com a boca fechada e os ouvidos bem atentos, captando tudo que diziam e criando minhas próprias opiniões, meu modo de ver o mundo. Eu nunca os julguei. Nunca apontei ou falei com nojo de sua hipocrisia, das barbáries que aconteceram na minha família. Eu sempre tentei entende-los. Somos seres humanos, passíveis de errar, de aprender, de mudar. As pessoas são frutos da época, da família, do meio. Eu sempre me disse "eles mudaram, isso não altera em nada meu amor por eles". 
Mas hoje, me pergunto... será que eu caí tão longe da árvore assim? 
Hoje não reconheço mais no meu pai aquele cara idealista, que me dizia para lutar, que defendia a vanguarda e os artistas militantes. São todos vagabundos, putas e só serão torturados se fizerem por onde, como as crianças de 64. Meu irmão é uma porta, dali só saem palavras convictas que não são passíveis de mudança, ele não está ali para me ouvir, mas sempre para falar, para me ensinar com seus anos de experiência adquiridas de dentro do seu quarto na frente do computador. Minha família não é mais cristã. Pelo menos não como está escrito na bíblia. Eles acham que amar ao próximo é amar quem é próximo deles. Eles acham que Deus lhes deu o poder de julgar o amor e a vida do outro, que o que diverge deles deve ser eliminado com punhos de ferro. Minha família não ouve, não credita, não muda. Minha família só debocha. Só diminui. Acho que definitivamente nosso Deus mudou.
Quando escrevo minha família não quero dizer todos, tantos ali me enchem de orgulho, tantos me dão vontade de conversar e trocar ideias até a madrugada com frases de "é, pode ser certo o que você diz" vindas de ambos os lados. A minha mãe é uma das que salvam. Minha mãe não se identifica mais com o feminismo, não defende a forma de lutar, mas me diz para eu lutar pelo que acredito. Assim como quando eu era criança e a família debochava da forma como eu os corrigia quando falavam "negão" "criolo" e minha mãe ria, mas logo dizia que eu estava certa. Hoje ela me diz para andar de casaco aberto, sem medo de mostrar os adesivos daqueles que eu acredito que podem mudar o país. Minha mãe me defende. Me diz para eu ser quem eu sou, ainda que seja diferente de quem os outros são. Ao menos minha mãe não me diminuem. 
Hoje a mãe de um amigo me disse que não devemos brigar porque os políticos vão, mas a gente fica. Vejo as coisas um pouco diferente. Os políticos vão e a admiração que eu tinha por algumas pessoas também, mas infelizmente só alguns de nós ficarão. 

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Hoje eu senti vontade de você. Hoje, depois de dois anos sem um mês em que seu nome não me viesse a cabeça, sem que inúmeros diálogos de ódio e rancor fossem mentalmente travados entre nós na minha imaginação, eu senti vontade de você.
Senti vontade de apoiar a cabeça no seu colo e te contar o que aconteceu, sabendo que você me diria palavras mornas, ainda que duras, e me levaria para beber. Me faria dividir outra e mais outra, afirmando que aquelas eram por sua conta, e quando eu já estivesse rindo alto demais, sem nenhuma barreira, você me olharia daquele jeito paternal e aquietaria meu coraçào momentaneamente.
Hoje eu senti vontade de alguém que já não existe mais, de alguém que um dia eu jâ cheguei a conhecer. E isso é tão típico de mim, uma saudade puxar a outra e a outra, até que dá uma hora da manhã e eu estou deitada escrevendo sobre uma amizade acabada há dois anos atrás.
Abri a conversa e você estava online. Senti vontade de tentar de novo botar um ponto final, desentalar a garganta e, tardiamente, dizer adeus. Mas não fiz. Eu sei sua resposta e, ainda que não soubesse, não quero correr o risco de te ter de novo na minha vida.
Dessa forma, fica aqui registrado, para gerações futuras, que só por hoje eu senti vontade de você.

Thamyres Vaccaro

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Buracos

Na solidão do meu quarto em noites de chuva tomo consciência do meu interior de maneira ainda superficial. Me interesso pelos buracos palpáveis que há em minha alma, ocos e secos. Não consigo me lembrar o que os habitava. Mágoas, tristezas, questionamentos e decepções que não carrego mais comigo. Pessoas...tenho certeza que algumas pessoas já passaram por ali.
Ao tocar os buracos antes ocupados por pessoas, sinto a dor silenciosa que de uma lança me atravessando, dor esta que vem caminhando comigo como uma sombra nos últimos meses. O vazio dos buracos me incomoda. Minha alma voraz e possessiva não se conforma com a ausência do que já teve um dia, quer reter toda a vida em um abraço e não deixar que nada lhe escape.
Zonza e incomodada com tanto pensamento e vazia, volto para a realidade externa e para a estabilidade dos ambientes ao meu redor.
Mais buracos se abrem em meu peito silenciosamente enquanto deixo mais de mim de lado, enquanto calo as perguntas sem resposta e as vontades não saciadas.
Penso no dia em que me tornarei apenas buracos.
Afasto o pensamento.



Thamyres Vaccaro

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Pena optativa



Deitados na sua cama com o sol insistindo em passar pela persiana e o ventilador barulhento de sempre, você dormia enquanto eu pensava.
Pensava no tempo que passara desde a última vez que eu havia me sentido "a gente" com você. Parecia que tinha se passado meses sendo eu, um mundo de coisas, e você. E eu estava tão de saco cheio desse mundo de coisas. Eu ESTOU tão de saco cheio. Por que as coisas não voltam a ser fáceis como antes? Por que a todo momento parece que a vida quer me avisar que o fim está próximo ou, simplesmente, me pergunta quanto tempo mais eu vou aguentar?
Eu também me perguntava. Me perguntava se valia a pena continuar nessa vida cheia de distâncias para ter você inteiro só por algumas horas em um ou dois finais de semana. Será que não seria melhor se tivéssemos aquelas relações casuais? Quando desse pra se ver a gente marcaria, se não desse, ok. Sem nenhuma expectativa, sem nenhuma cobrança... Mas eu não sou do tipo que consegue ter relações casuais duradouras, que não espera nada, que não cobra nada. Eu tento, mas não sou.
Quanto tempo levaria até nos distanciarmos por completo? Até nos perdermos um do outro a ponto de não nos lembrarmos mais do porque estamos juntos? Até nos tornarmos completos estranhos?
Cansada de dilemas, fechei os olhos. Pelo menos aquele dia valera a pena. Valia a pena não ter te encontrado (ou nos encontrado, como queira) durante meses, só por ter você dormindo do meu lado mais uma vez, exalando o cheiro do seu desodorante, passando a barba quase ruiva no meu pescoço e me trazendo mais pra perto num abraço, enquanto esconde a cara no travesseiro e murmura alguma coisa. Valia a pena o silêncio que você proporcionava em mim e todas as dúvidas que vinham no pacote.
Valia a pena estar com você.



Thamyres Vaccaro

terça-feira, 9 de setembro de 2014



Ela é um campo de margaridas brancas aonde o orvalho se aconchega pela manhã, se aninhando em suas folhas, umedecendo seus cabelos e indo embora com os primeiros raios. Ela é um piano velho, com a madeira riscada, desafinada e fora de moda, perdida numa mata qualquer sem ninguém lhe afagar as teclas para ouvir a música que toca dentro dela. É uma estante de livros encapados, coberta pela poeira do tempo a qual dança junto a luz do sol e transforma em belo o que antes era imundo. E um pulo no abismo não poderia ser mais perigoso, pois sua vontade é variante, seu ócio se resume em desejo e o querer e o não querer a liberta. Olhos. Te devora os olhos como quem quer lhe devorar a alma. Os segredos, Os pensamentos. E então acaricia a fera que há em ti. A acalenta, a afaga...acalma o bicho para depois o entregar ao caçador, recebendo dos dois agradecimentos e juras de amor. A flor de lótus no ombro direito já não a reprime mais. Leva os braços aos céus na tentativa de tocar as estrelas e eu, por vezes, eu acredito que o consiga. O universo parece invadi-la afogando lhe os pulmões e num ato falho de medo e insegurança queima seus desejos, liberta seus monstros, afugenta seus amores e perde-se na mata que habita seu peito, mostrando por fim sua própria íris, sua própria alma, seus próprios segredos.

Thamyres Vaccaro

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Ele volta da cozinha com uma taça de gim na mão e senta no sofá. Gim é estigante demais e talvez isso o divirta em mais uma das monótonas noites em que ele é liberado do trabalho mais cedo. Ela se mexe na poltrona para que o livro que está lendo fique melhor posicionado sob a luz do abajur.
Ele pergunta como foi o dia, ela responde que foi normal. Eles se detestam. Não, eles não se detestam, eles detestam o que significam um para o outro.
Ele toma um gole do gim e pensa em folhear um pornô no banheiro. Não, ficará mais avontade quando ela for dormir. Ele talvez pudesse, mas não a trai, apesar de tudo ela é uma pessoa boa e muitos anos atrás ele gostava dela.
Ela sente seus olhos se fechando e se pergunta se as palavras que lê ainda fazem sentido em sua cabeça. Ela pensa em acompanha-lo em uma taça de gim, mas a bebida é instigante demais e talvez a situação os force a conversar. Ela está cansada de conversar com ele. Fecha o livro.
Ela pensa que casou jovem demais. Ele pensa que tinha mais opções. Ele era engraçado, ela lembra. Ele se pergunta porque não viajaram o mundo. Ele tirou sua virgindade, naquela época isso era muito importante. Três anos de namoro. Eles estavam acostumados um com o outro, porque não casar?
Ela o encara por um segundo. Pensa em confronta-lo e mostrar o tédio que o casamento se tornou. Ele sustenta o olhar. Ela sabe que ele sabe. Levanta e avisa que vai dormir, apagando a luz do abajur. Ele lhe deseja boa noite, acaba de beber o gim e segue para o banheiro.

Thamyres Vaccaro