quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Quando pequena, nunca entendi porque meus tios mentiam para a minha prima mais nova dizendo que o cachorro do meu avô havia ido para um sítio e não morrido. Agora, com 21 anos, essa ideia me parece bem mais confortável. Isso porque, quando não é uma pessoa do nosso convívio diário, a impressão que temos é essa mesmo: de que ela foi para outro país e não irá mais voltar. De certa forma podemos nos acostumar com essa ideia, mas a verdade é diferente. É uma separação forçada, quase como se a vida te impusesse esse castigo sem ao menos te consultar. Eu nunca gostei de imposições, de ser mandada.

Por isso, quando a saudade aperta, eu imagino aquele intercâmbio na Áustria e, que pena!, lá o telefone não pega e você adotou uma vida mais natureba, largou o whatssap de vez... Que maravilha deve ser a Áustria e todas as histórias que você irá me contar quando nos encontrarmos (porque todo mundo se esbarra de novo nesse universo, pode apostar). E nesse dia eu vou ouvir alguém dizer "Vem cá, você sancha esse cara dupal, o Ford perfect? Tai um mingo que sabe onde guarda a toalha."

Para Lukas Kasdasdisand (eu nunca aprendi a escrever).

13/12/2018

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Eu cresci com meus pais ouvindo Caetano Velloso, Elis Regina e Geraldo Azevedo, me explicando as letras e me contando do tempo da ditadura, da tortura e como aquilo tudo fazia parte de um passado sombrio. Cresci com meu pai exaltando os hippies, a vida sem moldes, sem imposições sociais, a liberdade que ele tanto viveu na juventude. Minha mãe era feminista, lutou contra todos para traçar seu próprio destino, trabalhou desde cedo, nunca foi sustentada por homem, me ensinou a ser independente, a estudar, a não ter vergonha de ser quem eu sou. Minha família era cristã. Falavam do amor ao próximo, falavam de dar a outra face, de ajudar os pobres, sobre sermos todos iguais e não nos julgarmos. Falavam sobre fé.
Hoje me sinto um pouco perdida dentro da minha família. Me sinto como uma pequena personagem de um cartunista satírico, perguntando inutilmente aos meus parentes onde foi parar tudo aquilo que me ensinaram ao longo dos anos, todo o amor que me ensinaram a espalhar e toda a força que me fizeram ter para lutar. Será que eles não acreditam mais? Será que o Deus deles mudou?
Eles se recusam a me ver como um ser pensante, tentam diminuir minhas opiniões ridicularizando-as e apontando que são fruto de uma manipulação do governo, da internet, do comunismo folclórico em que eles acreditam. Eles não querem dialogar. Eles não pedem desculpas.
Logo eu, que sempre me mantive sentada na sala com a boca fechada e os ouvidos bem atentos, captando tudo que diziam e criando minhas próprias opiniões, meu modo de ver o mundo. Eu nunca os julguei. Nunca apontei ou falei com nojo de sua hipocrisia, das barbáries que aconteceram na minha família. Eu sempre tentei entende-los. Somos seres humanos, passíveis de errar, de aprender, de mudar. As pessoas são frutos da época, da família, do meio. Eu sempre me disse "eles mudaram, isso não altera em nada meu amor por eles". 
Mas hoje, me pergunto... será que eu caí tão longe da árvore assim? 
Hoje não reconheço mais no meu pai aquele cara idealista, que me dizia para lutar, que defendia a vanguarda e os artistas militantes. São todos vagabundos, putas e só serão torturados se fizerem por onde, como as crianças de 64. Meu irmão é uma porta, dali só saem palavras convictas que não são passíveis de mudança, ele não está ali para me ouvir, mas sempre para falar, para me ensinar com seus anos de experiência adquiridas de dentro do seu quarto na frente do computador. Minha família não é mais cristã. Pelo menos não como está escrito na bíblia. Eles acham que amar ao próximo é amar quem é próximo deles. Eles acham que Deus lhes deu o poder de julgar o amor e a vida do outro, que o que diverge deles deve ser eliminado com punhos de ferro. Minha família não ouve, não credita, não muda. Minha família só debocha. Só diminui. Acho que definitivamente nosso Deus mudou.
Quando escrevo minha família não quero dizer todos, tantos ali me enchem de orgulho, tantos me dão vontade de conversar e trocar ideias até a madrugada com frases de "é, pode ser certo o que você diz" vindas de ambos os lados. A minha mãe é uma das que salvam. Minha mãe não se identifica mais com o feminismo, não defende a forma de lutar, mas me diz para eu lutar pelo que acredito. Assim como quando eu era criança e a família debochava da forma como eu os corrigia quando falavam "negão" "criolo" e minha mãe ria, mas logo dizia que eu estava certa. Hoje ela me diz para andar de casaco aberto, sem medo de mostrar os adesivos daqueles que eu acredito que podem mudar o país. Minha mãe me defende. Me diz para eu ser quem eu sou, ainda que seja diferente de quem os outros são. Ao menos minha mãe não me diminuem. 
Hoje a mãe de um amigo me disse que não devemos brigar porque os políticos vão, mas a gente fica. Vejo as coisas um pouco diferente. Os políticos vão e a admiração que eu tinha por algumas pessoas também, mas infelizmente só alguns de nós ficarão. 

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Hoje eu senti vontade de você. Hoje, depois de dois anos sem um mês em que seu nome não me viesse a cabeça, sem que inúmeros diálogos de ódio e rancor fossem mentalmente travados entre nós na minha imaginação, eu senti vontade de você.
Senti vontade de apoiar a cabeça no seu colo e te contar o que aconteceu, sabendo que você me diria palavras mornas, ainda que duras, e me levaria para beber. Me faria dividir outra e mais outra, afirmando que aquelas eram por sua conta, e quando eu já estivesse rindo alto demais, sem nenhuma barreira, você me olharia daquele jeito paternal e aquietaria meu coraçào momentaneamente.
Hoje eu senti vontade de alguém que já não existe mais, de alguém que um dia eu jâ cheguei a conhecer. E isso é tão típico de mim, uma saudade puxar a outra e a outra, até que dá uma hora da manhã e eu estou deitada escrevendo sobre uma amizade acabada há dois anos atrás.
Abri a conversa e você estava online. Senti vontade de tentar de novo botar um ponto final, desentalar a garganta e, tardiamente, dizer adeus. Mas não fiz. Eu sei sua resposta e, ainda que não soubesse, não quero correr o risco de te ter de novo na minha vida.
Dessa forma, fica aqui registrado, para gerações futuras, que só por hoje eu senti vontade de você.

Thamyres Vaccaro

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Buracos

Na solidão do meu quarto em noites de chuva tomo consciência do meu interior de maneira ainda superficial. Me interesso pelos buracos palpáveis que há em minha alma, ocos e secos. Não consigo me lembrar o que os habitava. Mágoas, tristezas, questionamentos e decepções que não carrego mais comigo. Pessoas...tenho certeza que algumas pessoas já passaram por ali.
Ao tocar os buracos antes ocupados por pessoas, sinto a dor silenciosa que de uma lança me atravessando, dor esta que vem caminhando comigo como uma sombra nos últimos meses. O vazio dos buracos me incomoda. Minha alma voraz e possessiva não se conforma com a ausência do que já teve um dia, quer reter toda a vida em um abraço e não deixar que nada lhe escape.
Zonza e incomodada com tanto pensamento e vazia, volto para a realidade externa e para a estabilidade dos ambientes ao meu redor.
Mais buracos se abrem em meu peito silenciosamente enquanto deixo mais de mim de lado, enquanto calo as perguntas sem resposta e as vontades não saciadas.
Penso no dia em que me tornarei apenas buracos.
Afasto o pensamento.



Thamyres Vaccaro

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Pena optativa



Deitados na sua cama com o sol insistindo em passar pela persiana e o ventilador barulhento de sempre, você dormia enquanto eu pensava.
Pensava no tempo que passara desde a última vez que eu havia me sentido "a gente" com você. Parecia que tinha se passado meses sendo eu, um mundo de coisas, e você. E eu estava tão de saco cheio desse mundo de coisas. Eu ESTOU tão de saco cheio. Por que as coisas não voltam a ser fáceis como antes? Por que a todo momento parece que a vida quer me avisar que o fim está próximo ou, simplesmente, me pergunta quanto tempo mais eu vou aguentar?
Eu também me perguntava. Me perguntava se valia a pena continuar nessa vida cheia de distâncias para ter você inteiro só por algumas horas em um ou dois finais de semana. Será que não seria melhor se tivéssemos aquelas relações casuais? Quando desse pra se ver a gente marcaria, se não desse, ok. Sem nenhuma expectativa, sem nenhuma cobrança... Mas eu não sou do tipo que consegue ter relações casuais duradouras, que não espera nada, que não cobra nada. Eu tento, mas não sou.
Quanto tempo levaria até nos distanciarmos por completo? Até nos perdermos um do outro a ponto de não nos lembrarmos mais do porque estamos juntos? Até nos tornarmos completos estranhos?
Cansada de dilemas, fechei os olhos. Pelo menos aquele dia valera a pena. Valia a pena não ter te encontrado (ou nos encontrado, como queira) durante meses, só por ter você dormindo do meu lado mais uma vez, exalando o cheiro do seu desodorante, passando a barba quase ruiva no meu pescoço e me trazendo mais pra perto num abraço, enquanto esconde a cara no travesseiro e murmura alguma coisa. Valia a pena o silêncio que você proporcionava em mim e todas as dúvidas que vinham no pacote.
Valia a pena estar com você.



Thamyres Vaccaro

terça-feira, 9 de setembro de 2014



Ela é um campo de margaridas brancas aonde o orvalho se aconchega pela manhã, se aninhando em suas folhas, umedecendo seus cabelos e indo embora com os primeiros raios. Ela é um piano velho, com a madeira riscada, desafinada e fora de moda, perdida numa mata qualquer sem ninguém lhe afagar as teclas para ouvir a música que toca dentro dela. É uma estante de livros encapados, coberta pela poeira do tempo a qual dança junto a luz do sol e transforma em belo o que antes era imundo. E um pulo no abismo não poderia ser mais perigoso, pois sua vontade é variante, seu ócio se resume em desejo e o querer e o não querer a liberta. Olhos. Te devora os olhos como quem quer lhe devorar a alma. Os segredos, Os pensamentos. E então acaricia a fera que há em ti. A acalenta, a afaga...acalma o bicho para depois o entregar ao caçador, recebendo dos dois agradecimentos e juras de amor. A flor de lótus no ombro direito já não a reprime mais. Leva os braços aos céus na tentativa de tocar as estrelas e eu, por vezes, eu acredito que o consiga. O universo parece invadi-la afogando lhe os pulmões e num ato falho de medo e insegurança queima seus desejos, liberta seus monstros, afugenta seus amores e perde-se na mata que habita seu peito, mostrando por fim sua própria íris, sua própria alma, seus próprios segredos.

Thamyres Vaccaro

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Ele volta da cozinha com uma taça de gim na mão e senta no sofá. Gim é estigante demais e talvez isso o divirta em mais uma das monótonas noites em que ele é liberado do trabalho mais cedo. Ela se mexe na poltrona para que o livro que está lendo fique melhor posicionado sob a luz do abajur.
Ele pergunta como foi o dia, ela responde que foi normal. Eles se detestam. Não, eles não se detestam, eles detestam o que significam um para o outro.
Ele toma um gole do gim e pensa em folhear um pornô no banheiro. Não, ficará mais avontade quando ela for dormir. Ele talvez pudesse, mas não a trai, apesar de tudo ela é uma pessoa boa e muitos anos atrás ele gostava dela.
Ela sente seus olhos se fechando e se pergunta se as palavras que lê ainda fazem sentido em sua cabeça. Ela pensa em acompanha-lo em uma taça de gim, mas a bebida é instigante demais e talvez a situação os force a conversar. Ela está cansada de conversar com ele. Fecha o livro.
Ela pensa que casou jovem demais. Ele pensa que tinha mais opções. Ele era engraçado, ela lembra. Ele se pergunta porque não viajaram o mundo. Ele tirou sua virgindade, naquela época isso era muito importante. Três anos de namoro. Eles estavam acostumados um com o outro, porque não casar?
Ela o encara por um segundo. Pensa em confronta-lo e mostrar o tédio que o casamento se tornou. Ele sustenta o olhar. Ela sabe que ele sabe. Levanta e avisa que vai dormir, apagando a luz do abajur. Ele lhe deseja boa noite, acaba de beber o gim e segue para o banheiro.

Thamyres Vaccaro

domingo, 3 de agosto de 2014

Esse é um trecho do discursos de formatura de um formando do meu colégio, o qual ele direcionou aos pais e eu achei muito coerente.
"Tivemos que vencer preconceitos pessoais de ideologias, preconceitos familiares que nos foram instituídos, preconceitos existências por medo de não sermos suficientemente bom para VOCÊS, quando na verdade nossa obrigação é sermos o suficiente para nós, sermos realizados em nossa vida pessoal, e que essa sensação maravilhosa possa ser transmitida a todos os presentes em nossas vidas, seja de maneira diária, seja como um contato que dura com estações. Somos frutos de nossos erros, em especial, dos erros que vocês provavelmente condenariam, e tenho orgulho de ter tido chance de cometer erros que se dependesse de vocês, nunca cometeríamos. Na verdade, são erros mesmos? Ou cada um instruiu o outro do que é um erro a partir de mágoas e decepções? Vejam como somos belas flores que crescemos em um campo selvagem, porém repleto de vida e que nunca seriamos tão belos a nossa maneira, e nem tão bem desenvolvidos, se ficássemos expostos simplesmente em seus jardins. "

sábado, 14 de junho de 2014

Eco irrevogável e o Grande Talvez


Lendo, talvez, o quarto livro aonde a personagem principal é uma garota misteriosa que se vai antes que os que a amavam possam realmente conhece-la, eu me peguei pensando se gostaria de ser essa garota, se gostaria de ser eternamente um mistério, um Grande Talvez. Eu sei, é irremediável o fato de que os que me amam não me conhecem ao todo e gostam de mim pela ideia que fazem de quem sou, mas será que, se um dia fizerem minha biografia, não esquecerão um detalhe que para mim era importante e que talvez nem tenham notado? Será que se importarão com as minhas lembranças na caixa, com os meus pensamentos em cadernos e meus textos postados ou apenas jogarão tudo fora com o intuito de tornar o sofrimento mais suportável? Eu gostaria que todos que me amaram lessem tudo, quem sabem guardassem ou devolvessem as lembranças as pessoas que participaram das mesmas, e buscassem conhecer quem eu não mostrava em vida. Não gostaria que minha vida fosse toda esquecida e dentro de cinquenta anos ninguém mais soubesse quem foi Thamyres Vaccaro, porém aceito o fato de que, depois da minha morte e depois da morte daqueles cujas vidas eu marquei, eu serei apenas um registro de nascimento num cartório carioca e minha contribuição para a humanidade estará enterrada em diversas covas. Eu aceito.
E isso acontecerá com cada um de nós, mesmo com aqueles que serão lembrados, para quem farão estátuas e documentários. A pessoa, suas lembranças, sentimentos, a mente e a vida em si se vai. Você deixa para o mundo a contribuição que faz na vida das pessoas e a partir do momento em que essas pessoas também se vão, sua vida se tornará apenas um eco na sucessível cadeia de contribuições que rege o mundo. Você atuou na vida de uma pessoa A que irá atuar na vida de uma pessoa B e assim por diante e esse é o único modo de imortalidade que existe, o silencioso e indigente. Você atua apenas na forma de energia.
E quando eu digo contribuir, atuar, eu não quero dizer apenas com grandes feitos, mas também com simples palavras, cumprimentos. Tudo fica armazenado no histórico de vida da pessoa, como se tivéssemos uma memória de dados que armazena tudo que nos acontece ao longo da vida.
Essa é a Thamyres, alguém que talvez não tenha mostrado o máximo ou o melhor, que talvez tenha partes de si jogadas fora, queimadas, que deixará tanta tristeza em morte como deixou alegria em vida e que um dia será completamente esquecida pelos vivos e será apenas um eco.
E ela aceita isso.




Thamyres Vaccaro

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Piledriver Waltz

Mas o fato é que houve uma dança antes do inferno.
Houve uma dança antes de aquela sala pegar fogo e eu e você nos tornarmos um misto de cinzas e gás carbônico, intoxicando o sangue e sujando a pele.
Você segurou a minha cintura com as suas mãos calejadas sem que eu precisasse explicar e me lançou aquele olhar tão confuso e piedoso, o qual eu aprendi a odiar. Meu vestido coral e as pérolas no meu pescoço faziam de nós uma espécie de casal dos anos 50 embarcando em uma primeira dança sem saber que em alguns instantes teríamos realmente dançado. Eu ouvia Piledriver Waltz e suas críticas sobre como a Inglaterra havia perdido sua essência desde que passara a estampar camisetas de lojas da Saens Peña. Me sentei sobre a mureta da varanda e te ofereci um cigarro, você disse que aquilo era nojento e arremessou o maço longe. Eu concordava com você então apenas agradeci. Deitado no meu colo contando seus sonhos e pensamentos você parecia tão menos amedrontador e armado. Eu te contei algumas lembranças e você riu de alguém que eu já fui. O assunto acabou e você falou do frio. Eu disse ser frescura. Você disse que embaixo do meu vestido deveria estar mais quente. Joguei na sua cara algumas verdades e por alguns segundos te vi envergonhado, mas nada bom o suficiente para que eu pudesse me gabar. Você fez aquela coisa chata de me encarar e olhar nos meus olhos como se estivesse lendo minha alma. Odeio que façam isso comigo. Adoro fazer isso com os outros.
Talvez nós pudéssemos ter ficado assim mais algum tempo. Talvez pudéssemos ter transformado todos aqueles pensamentos, excitação e sentimentos ( não sei que nome dar ao certo) em um beijo, mas nós sabíamos que não valeria a pena. Não queríamos que vale-se. Tudo aquilo já estava bom demais. Era o suficiente.
Te puxei para a pista e gritei como Elvis era incrível. Você tentou um twist que me convenceu do quão ruim eu era com essa coisa de dançar. Realmente aquele terno preto caiba bem em você. Se nós tivéssemos tido tempo eu teria dito para você usa-lo todo dia. Seu cabelo bagunçando enquanto se balançava dava um ar bem "reformatório vintage" à sua performasse. Eu amava naquele momento. Não você. Eu amava aquela cena, eu amava aquele momento, eu amava meu vestido coral e toda a luz ambiente que envolvia aquela sala. Você leu a minha mente e gritou que estava amando aquilo, que amava a vida. Gritamos isso um para o outro. Olhamos nossas almas. 
Tudo teve três segundos de eternidade.
E então pegamos fogo.





Thamyres Vaccaro

domingo, 18 de maio de 2014

Valsavas:
Teus belos
Cabelos,
Já soltos,
Revoltos, 
Saltavam,
Voavam,
Brincavam
No colo
Que é meu;
E os olhos
Escuros
Tão puros,
Os olhos
Perjuros
Volvias,
Tremias,
Sorrias,
P’ra outro
Não eu!

-Casimiro de Abreu

domingo, 4 de maio de 2014

Tem uma caixa de memórias em cima do meu armário que me da a certeza de que o passado foi real ao menos para mim. Tem um quadro de moldura amarela com dizeres bonitos apoiado na escrivaninha que me inspira e me alegra. Minha prima me deu só por me dar e esses são os melhores presentes. O vestido de casamento da minha mãe está pendurado ao lado do armário. Espero que não amarele, ele é tão lindo. Uma pilha de livros sem muita utilidade se posiciona abaixo de um quadro de metal com fotos das pessoas que amo. Já tentei fazer nele uma arrumação bonita, mas depois de uns oito anos desisti. Tem uma prateleira com dois porta-retratos preenchidos por saudades: a praia da minha vida e os meus irmãos. Os sapatos e mochilas estão espalhados pelo chão, assim como um rádio nômade que eu uso muito pouco. Me pergunto porque tenho um chapéu de cowboy encima do teclado empoeirado que também se encontra encima do armário. Deixa pra lá. No espelho estão escritas frases que me inspiram com uma caneta marcadora preta. "Live and let die" está lá e isso é tão bonito. Tem um cartão postal com uma pintura da França e essa foi uma das lembranças que eu mais amei porque foi simples. Numa madeira avulsa acima da janela estão as lembranças que ganhei de Portugal, Holanda, França (outra) e Inglaterra. Mimos. Olho novamente para o espelho e percebo que esqueci de descrever uma menina sentada numa cadeira de madeira, digitando qualquer coisa no computador, em frente ao quadro de moldura amarela. Nenhuma pose interessante, nada que chame atenção. Um santuário neutro e convidativo apenas para aqueles que enxergam além dos olhos, para os que perguntam, para os que supõem, para os que querem saber.
Para outros:
Apenas um quarto.




Thamyres Vaccaro
"Eu gosto das pessoas que param para escutar. Que gostam de abraços, que conseguem amar. Gosto de pessoas que riem de modo estranho, choram escondidas. Gosto de pessoas que não se escondem atrás de máscaras, pessoas que são fortes, pessoas que sempre seguem em frente. Gosto de pessoas que gostam de pessoas. Gosto de pessoas que sabem o motivo de uma lágrima, que estão sempre por perto. Gosto de pessoas que nunca se vão, de pessoas que ficam, que tentam, que conseguem. Gosto de pessoas assim… Como elas são."
— Tati Bernardi. 

quarta-feira, 30 de abril de 2014

"E eu? Quem enxergará no fundo de mim, se nem eu enxergo no escuro? Ali no fundo mais fundo, onde não entra luz. Eu entro apalpando, com medo e com coragem, mas mal distingo as texturas. Intuo, às vezes. Mas enxergar, definitivamente não. Sou cega no escuro de mim, e aí reside o pavor e a liberdade."

Um trecho de um texto lindo que eu encontrei num blog chamado Bolhinhas da Lian. Segue o texto:

http://bolhinhasdalian.blogspot.com.br/2014/02/eu-estava-andando-pela-rua-do-catete.html 

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Pasto

- Eu quero que você fique pra sempre!
- Você sabe que eu não posso, eu não sou de verdade.
- Claro que é! Você está aqui! Eu posso te sentir, todos podem!
- Sim, eu estou aqui e todos podem me ver, me tocar, mas eu não sou de verdade. Eu faço parte apenas da sua imaginação, da imaginação de todos eles.
- Como assim? Então eu compartilho a mesma amiga imaginária com todos que estão ao redor?!
- Não, para alguns eu sou a garota que passa por eles com o olhar longe e o nariz empinado, para outros eu sou a freguesa distraída que pediu um McTriplo da promoção, a azarenta que confundiu os banheiros e para você eu sou a amiga que você precisava. 
- E quem são todos eles? Quem somos nós para você?
- São as pessoas que me criam, as pessoas cujas vidas eu cruzo para deixar algo, para mostrar o que não conseguem ver sozinhos, para acalentar a solidão. Lembra que você me disse que eu só atraía pessoas com algum vazio? Pessoas que precisavam de algo? Bem, talvez eu seja a própria solidão que dança com a solidão alheia para mostrar que estar sozinho pode não ser tão ruim assim, para te ensinar a fazer o melhor com aquilo que se tem.
- Mais espelho do que janela?
- Digamos que eu sou uma janela espelhada! (risos)

domingo, 9 de março de 2014

Para onde vão nossos silêncios?
Já pensou se existisse um mundo só para eles? Um lugar aonde eles ficassem guardados e as palavras que nunca dissemos ficassem ecoando sem parar. Onde não haveria profanação dos nossos sonhos, desejos e sentimentos, onde  tudo seria eternamente selado no profundo não saber.
E as palavras que engolimos, cortando nossas gargantas como espinhos, fazendo sangrar para dentro de nós mesmos chances que nunca mais teremos e trazendo consequências que mais parecem muros, se aconchegam na doce solidão deste mundo de vazios, sendo acalentadas por tantos outros erros, ou até acertos, que são o eco de mais palavras enviadas para o nimbo de nossas almas.
Deixe passar a oportunidade, deixe passar o pensamento, deixe morrer a sua língua. Aumente a natalidade desde universo de exílio que te persegue em vida e morte.
Para onde vão nossos silêncios?



Thamyres Vaccaro, depois de muito chocolate.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Sobre Nome

De maneiras diferentes posso dizer que os meus sobrenomes andam me perseguindo.
Primeiramente fui abordada por alguns amigos sobre o porque de ter mudado meu sobrenome em uma rede social e em seguida fui acusada de não amar a família do sobrenome antigo pois não o uso (oi?). Resolvi esclarecer alguns pensamentos que tenho em relação a isso, então vamos lá.
Comecemos a conversa esclarecendo que eu possuo três sobrenomes, cujo o mais bonito, na minha opinião, é o Vaccaro. Eu nunca gostei de ser igual a todo mundo e, quando pequena, achava meio clichê ter família vinda de Portugal (nacionalidade do primeiro sobrenome), por isso carregava no sotaque para falar o sobrenome italiano que todos tinham dificuldade de pronunciar.
Porém a minha mãe é uma pessoa levemente muito ciumenta e sempre me cobrou o uso do sobrenome dela, por isso decidi coloca-lo na conta da rede social que mais uso. Três anos se passaram e eu percebi que as pessoas em geral só usavam esse sobrenome! Poucas sabiam da existência dos outros dois! Logo, mudei meu sobrenome, nessa rede, para Vaccaro e deu certo, em menos de um mês já me chamavam pelo meu futuro "nome artístico". Obviamente isso me custou algumas reclamações da minha mãe, mas nada que não vá passar no futuro. 
Uma coisa interessante que ouvi de um amigo foi sobre a diferença das pessoas contidas em cada sobrenome que carrego. A "Thamyres Sobrenomedamãe", segundo ele, seria a que todo mundo conhece, que interage com as pessoas em geral. Já a "Thamyres Vaccaro" só se deixa ver por poucos, seria minha parte sentimental, que gosta de textos, fotografia, teorias e etc, tudo que quem me conhece não espera conhecer. Eu acrescentaria ainda a "Thamyres Terceirosobrenome", a qual ninguém sabe que existe e os que sabem só ouviram de sobressalto. É uma mistura de uma Thamyres que já existiu, com as marcas que a mesma deixou e talvez nem eu conheça muito bem essa Thamyres, uma Thamyres que está só no papel, no final de uma assinatura, isso quando é assinada. O próprio motivo de esconde-la é pessoal demais.
Mais uma vez me deparo com o meu mundo poliédrico e me pergunto qual pessoa estará contida nos sobrenomes alheios, qual será que eu conheço, qual será que eu nunca vi.
Quantas "você" existem em ti?



Thamyres, a Vaccaro.

" A adolescência tem um egoísmo típico, um isolamento até mesmo necessário, pois você está se descobrindo, se formando, experimentando as coisas."

- Cleibe, a sábia.